Semana On

Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna Re-existir na diferença

Diadorim e o devir mulher

Uma história no sertão

Postado em 17 de Março de 2021 - Túlio Franco

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Diadorim é a personagem mais emblemática de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. Mulher de nascença se torna homem para guerrear junto com um bando de jagunços no sertão do Gerais. Terra seca, empoeirada, árida, vive duas guerras. Manter-se incólume ao olhar dos outros, resguardando o seu segredo a sete chaves, e a guerra pela sobrevivência no mundo masculino e suas dobras na violência.

O corpo que desliza entre rios, morros, vegetação rasteira, bois e boiadas, transparece na história sem uma identidade fixa. É homem para o bando, mulher segredada para consigo mesmo. Diadorim está no meio, entre gêneros, ou seja, em um não lugar, ou, o lugar onde tudo é possível. O espaço do entre é onde ninguém captura, não há polo, e nem tramas binárias de apropriação do outro. O entre é sobretudo o lugar de produção molecular, puro agenciamento, expressão de devires.

Aquele corpo belo, olhos claros, deslizando delicadamente na montaria de um cavalo, por sobre o chão duro e seco da terra sertaneja, era o objeto amoroso de Riobaldo, chefe do bando. Um amor nunca correspondido, sobressaindo apenas a amizade desde a meninice. Riobaldo Tatarana, era uma espécie de filósofo do sertão, contemplativo, sensível, vivendo no meio do nada, ambiente áspero, de gente embrutecida pela exposição ao tempo, ao sofrimento.

Diadorim, até então conhecido entre a jagunçada como Reinaldo, num momento de sincera confidência ao seu amigo:

_ “Você era menino, eu era menino... Atravessamos o rio na canoa... Nos topamos naquele porto. Desde aquele dia é que somos amigos.

Que era, eu confirmei. E ouvi:

_ Pois então: o meu nome, verdadeiro, é Diadorim... Guarda este meu segredo. Sempre, quando sozinhos a gente estiver, é de Diadorim que você deve me chamar, digo e peço, Riobaldo...”.

Um corpo que em sendo homem, há um devir mulher, sendo mulher, um devir homem. Confirmado, o amor que acontece só no olhar, no querer bem, no resguardar, no proteger das maledicências, da faca amolada, do sol quente, da chuva fria. Esse amor que é só afeto, desejo, intensidade, mira no meio do coração e ali se aloja.

“Daquela mão, eu recebi certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandeza. Deu alma em cara. Adivinhei o que nós dois queríamos – logo eu disse: _’Diadorim... Diadorim!’ – com uma força de afeição. Ele sério sorriu. E eu gostava dele, gostava, gostava.”

Tempo de guerra, o bando caminha às horas do sertão, do vento parado, da água rasa do rio, a nuvem que flutua no meio do azul do céu. O tempo aqui é outro, de um vagar saboroso, que dá pra apreciar a vida ser vivida. Mas aproxima-se a batalha final. No terreiro no meio do povoado o demo se apresenta.

“... o diabo na rua no meio do redemoinho.”

Tilintar de ferro com ferro, estampido de carabina, rodopiando feito corisco no meio do mundo, Diadorim. Riobaldo acode de outro lado, a poeira no alto, relinchar de animais, passarinho que avoa. Quando tudo se acalma, e o sertão volta à sua mansidão, o corpo de Diadorim jaz na casa velha solitária.

É parte do rito preparar o corpo, encomendar a alma, e enterrar o morto pra que assim, os vivos tenham sossego pra continuar a viver a vida. Na lavagem do corpo nu, se revela:

“Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, da coronha...

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero”.

Esta é uma história de amor, acontecida no sertão, e contada em livro. Lembrei aqui para homenagear esta mulher incrível, Diadorim, e através dela, todas as pessoas no seu devir mulher.

Março, mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Régis Moreira e Túlio Franco

Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Régis Moreira e Túlio Franco

Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo e Régis Moreira é jornalista.


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