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Terça-Feira 09.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Coluna Re-existir na diferença

Cadê o mundo que estava aqui?

Suicídio infantil: a tragédia silenciosa na Pandemia de Covid-19

Postado em 17 de Fevereiro de 2021 - Túlio Batista Franco

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Em setembro de 2020 a Organização Pan Americana de Saúde lança um alerta para suicídios no contexto da pandemia de Covid-19. A decisão veio após verificar que significativo número de pessoas estava desenvolvendo estados de angústia, ansiedade e depressão e outros sinais de sofrimento mental. A questão se torna mais dramática quando observamos que o suicídio se tornou uma possibilidade para um certo número de crianças e adolescentes, após prolongado período de fechamento das escolas, e sem contar com um programa de acompanhamento e apoio.

O New York Times na edição de 24 de janeiro de 2021 informa que no condado de Clark, Nevada-EUA, 18 estudantes haviam tirado a vida em 9 meses de fechamento das escolas, é o dobro do verificado no ano anterior. O mais jovem tinha 9 anos. Crianças negras e identificadas com a comunidade LGBTQIA+ estavam entre as mais marginalizadas e sujeitas ao sofrimento. Não é possível associar o suicídio ao fechamento das escolas, mas o fenômeno pela forma e momento em que aconteceu, levanta fortes preocupações nesta direção.

Estudos em outros países como no Japão, e Inglaterra, identificam aumento de suicídios infantis no ano de 2020 em relação a 2019, mas são inconclusivos para a associação entre este fenômeno e a resposta à pandemia. De qualquer forma, acende o alerta para a questão da saúde mental neste público. Frente às perdas de tudo o que a escola significa, a ameaça de morte de parentes e amigos, fazem com que aumente o risco de crianças e adolescentes desenvolverem sofrimento mental. Pesa sobre esta realidade, o fato de não encontrarem suporte profissional para ajuda, amparo e acolhimento. Em populações de baixa renda, os riscos aumentam pelo grau de estressores a que as crianças são submetidas, pela carência material, insegurança alimentar, instabilidade e conflito nas relações.

No Brasil o fechamento da rede de ensino pública atingiu em torno de 40 milhões de crianças e adolescentes, o que corresponde a 80% das 50 milhões de matrículas existentes no Brasil, para o ensino fundamental. De repente a sala de aula, o pátio da escola, os jogos, o caminho pra casa, e a convivência nos encontros foram perdidos. Perde-se o chão, as referências, a segurança, o futuro.

A ONU alerta para uma crise nutricional em crianças, decorrente do fechamento das escolas em países de baixa renda e população de maior vulnerabilidade, segundo El País de 15/2/2021. Movimentos de retomada cuidadosa das atividades escolares, não necessariamente ensino, mas também sempre que possível, começam a se esboçar no cenário nacional e internacional. Há o temor de uma grande evasão escolar no pós-pandemia, caso não haja uma reação à situação atual.

No Brasil diretrizes de acolhimento, apoio, solidariedade, compartilhamento de decisões e ações com a comunidade local, utilizando como base equipamentos escolares hoje ociosos, se colocam como possibilidade neste momento. Soluções locais entre estudantes, docentes e comunidade, operando com base territorial, e solidariedade, são uma referência para encontrar saídas a este grave momento que a comunidade educacional vive. Entidades da saúde e educação que se reúnem em torno da Frente pela Vida propuseram para discussão o “Manifesto Ocupar Escolas, Salvar Vidas, Recriar a Educação”. Ao debate.


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Régis Moreira e Túlio Franco

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo e Régis Moreira é jornalista.


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