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Sábado 06.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Coluna Re-existir na diferença

O horizonte inalcançável da comunicação diante da supervalorização da idiotia

Se a comunicação está inatingível, nossa humanidade está ameaçada. Não há como separarmos uma da outra. Somos seres relacionais

Postado em 14 de Janeiro de 2021 - Régis Moreira

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O homem é um animal social e para o filósofo, Vilém Flusser, ele consegue se libertar de sua idiotia (privatperson) a partir dos relacionamentos que estabelece com os outros e com o mundo (zoon politikon).  Para ele, o homem é um “idiota (na origem da palavra, uma pessoa privada) caso não tenha aprendido a se servir dos instrumentos de comunicação, como, por exemplo, a língua.  A idiotia, o ser homem imperfeito, é falta de arte”. A comunicação humana não é natural, é uma construção artificial e codificada, que pressupõe compartilhamento de códigos e os símbolos, em contextos e culturas específicas. Nada tem sentido a priori, mas o sentido é dado às coisas pelos sistemas de codificação do mundo, a partir das abstrações desenvolvidas pelos próprios humanos.

Vivemos em tempos que a idiotia é valorizada, não como falta de contato com os códigos, mas sendo ela própria, um código específico de estupidez, da qual muitos se orgulham e valorizam do quanto mais tosco, melhor; quanto mais imbecil, mais popular, mais próximo do povo, mais humilde... num avalanche de inversões e subversões de valores, que custamos a processar os caminhos que desembocamos, diante de contextos fascistas, necropolíticos, obscurantistas, sexistas, portadores de diversas fobias... onde o que se honra é a falta de brio e zelo pela vida. Em que a gentileza é sinônimo de viadagem, onde quanto mais estúpido, melhor. Pessoas de alguns grupos neoliberais, de extrema-direita ou de direita, deliciam-se do tosco, como forma estética do existir, valorizando campos de concentração nazista, ditaduras, torturadores, opressões diversas, em que toda e qualquer desqualificação do outro é regozijo. Em que a destituição do outro é motivo de sentirem-se mais potentes. Assim se fazem, assim crescem, assim existem, na produção de mortes simbólicas e físicas, para que possam se sentir superiores. Por isso tanto medo do comum, do tal dito e mal compreendido comum(nismo). A produção do comum é tudo aquilo que potencializa o abismo das diferenças dos seus lugares de privilégio, sejam eles quais forem e quantos forem, mas esses pequenos ou grandes privilégios devem ser valorizados da destituição da dignidade do outro. Para que o abismo burguês, capitalista e neoliberal seja ampliado e as desigualdades possam continuar a ser o motivo de suas impotências humanas, que se arrastam atreladas a valores monetários e torpes.  

Os portadores das masculinidades tóxicas têm muitas características comuns entre si, que podemos perceber e lamentar a olhos nus. Geralmente são muito convictos e cheios de si. Nos seus ensimesmamentos umbilicais não há espaço para dúvidas ou questionamentos. Numa conversa, que via de regra vira briga e agressão (encabeçada por eles), a argumentação é o tom da voz acima do normal, e não raras vezes, o grito mesmo. Gritar com o outro é uma tentativa de destituir a argumentação alheia, diante da falta de conteúdo ou de um repertório forjado em grupos tendenciosos fascistas de whatsapp e canais televisivos e outros meios jornalísticos, de uma mídia vendida e mentirosa.

Uma das estratégias fundamentais é a desqualificação do outro. O repugnante: a violência estúpida nos pequenos gestos e nos antiprazeres do viver. Sua opinião é sempre a correta, a única, totalitário em seu orgulhoso posto de ser o mais idiota. Não há espaço para diálogo. Diálogo? O que é isso para esses tais? E na busca dos prazeres inalcançáveis (que só se dão pelo espírito, pelas abstrações e fruições da arte), acabam se entupindo de cigarros, álcool e outras drogas. Tais entorpecentes potencializam suas fragilidades humanas e os aproximam ainda mais da imbecilidade. Crescem na razão. Criam confusão. Ficam ainda mais insuportáveis.

A dúvida e desconfiança instaurada sobre o outro é uma guilhotina pronta para desabar sobre a cabeça alheia a qualquer momento. Dono de uma cafonice intrínseca, sua estética preza pelo bizarro, desde os pequenos gestos, nas asperezas cotidianas, no (des)trato com as palavras. É a própria antítese da gentileza. Geralmente hétero e macho (existem exceções) dizem gostar de mulher, mas as maltrata. Isso é gostar? E quando se autoreferenciam, a vitimização toma conta das lamúrias de incompreensão alheia sobre eles, “pobres coitados incompreendidos”, que só tiveram a intenção de “fazer o bem”.  E aí talvez tenham certa razão, pois falta mesmo amor. Quem planta sementes rudes, também as colhe, mas se espanta ao próprio fruto sem afeto, seco e com sabor de fel.

Esses tipos adoram dar ordens. Vestidos da capa hipócrita de cidadãos de bem, cultuam mitos, favoráveis às mais diversas ditaduras, principalmente às suas próprias, por todas as relações verticais que bravejam e vivenciam em suas pequenas ou grandes relações de poder. Por isso, são defensores da meritocracia. Oprimir é sinônimo de liderança, de pro-atividade, de resolutividade, de produtividade. Orgulhosos de suas próprias ignorâncias, valoram os custos monetários. É o que conseguem valorar. Na incapacidade de fruirem a vida, agigantam-se numa leveza de hipopótamo (com todo respeito aos hipopótamos). Seguem, incapazes de pedir perdão (aliás, pedir perdão de quê? – nunca erram!).

Homens frágeis, destruidores, vorazes. Consideram saber tudo sobre tudo. Tem sempre uma opinião a dar a respeito de todos os assuntos, na superfície de sua profundidade de espelho d’água. Tementes à Deus (que deus?), são ideológicos, teocráticos e alérgicos ao comum, à qualquer possibilidade de construção de comum, que apresente a horizontalidade, a igualdade, a comunidade, como viabilidade das relações. Portanto, esbraveja contra o comum(nismo). É uma ameaça à sua existência. Reza, ora, como homens de fé dos contemporâneos templos de Jerusalém. É um tipo caridoso, filantropo, mas contrário às transformações sociais, que impliquem em perda de seu lugar de privilégio. Consideram o social um radicalismo. No púlpito de seus egocentrismos, o bem-estar é o próprio umbigo: o centro do universo. Desta forma, são incapazes de enxergarem o outro. Que outro, além dele? Ensimesmados, num vortex de si mesmo, em que tudo é fake: a cara, a fé, a consciência, a alegria, as News.

Assumir o que falam não é seu ponto forte. Dizem que não disseram. Que não foi bem assim o que declararam. Que não declararam. Que você é quem não entendeu o que disseram. Ou seja, a culpa é sua. No desdizer, culpabilizam o outro, a mídia, o filho, a mulher, os funcionários, o amigo, o vizinho, os partidos políticos progressistas, aqueles políticos que elegeram como inimigos da nação. Para esses, as portas dos congressos e capitólios estão sempre abertas, trancadas com fios de nylon, pra quando quiserem ocupar e manifestar seus protestos, com caras pintadas das cores da pátria, bandeiras enroladas pelo corpo, chifres, símbolos nacionais, roupas de duvidoso gosto. A esses, as catracas do metrô são liberadas, a vigia é cega, o policiamento é frouxo.  

Produtores de cortinas de fumaça, quando não são as próprias cortinas, são peritos em desviar o foco de atenção quando não há interesse em continuar a discussão, ou querem mascarar a realidade. Matam ou apoiam os que matam. Torturam e aplaudem os que torturam, as penas de morte, estupros, assassinatos de minorias, destituições de direitos humanos... e amam os programas policialescos sensacionalistas.

Mas aguarde, que o mesmo imbecil que tentou te destituir com violência, após “merdalhar” toda relação possível, nas medidas do aceitável, começa a te tratar tão bem, com tamanha doçura, que te faz sentir mal, pelo fato de o ter considerado um idiota. Nesse processo, tenta inverter a culpa, para que ela recaia sobre você. Levando a crer que o ruim da história é você. Você que é intolerante, num jogo abusivo de assédio, com suas conveniências e subornos.  

Quem está imune ao convívio com os tais? Acabamos criando estratégias de sobrevivência, resistências e enfrentamentos. Um casco para suportar esses sujeitos (quando não há outra saída), numa missão que se torna quase impossível.

Para Flusser, a comunicação nasce da necessidade existencial do homem em estabelecer contato com o outro, para aplacar a solidão e esquecer da sina que todos vamos morrer. Dominique Wolton, em sua obra Informar não é comunicar, questiona os rumos que a comunicação digital, as tecnologias e o excesso de informações nos levaram. Apesar de termos todo aparato tecnológico, o horizonte comunicacional está cada vez mais distante e a incomunicabilidade é linha inatingível, pois não adianta somente recursos tecnológicos e a ideologia tecnicista, para que a comunicação de estabeleça. Comunicar é conviver.

Mas como conseguir chegar ao dialogismo de Paulo Freire, se não compartilhamos os mesmos códigos, os mesmos símbolos, os mesmos sentidos de vida, o que torna inacessível o horizonte da comunicação? Falamos outras línguas, de planetas distintos. Partilhar necropolíticas, negacionismos e produções de morte é ser conivente de um mundo de destruições. A compreensão da vida, dos seres vivos e do mundo é diferente. Encontrar um caminho conciliador fica cada vez mais difícil, mais raro, diante das cisões separatistas estimuladas por governos fascistas, por regimes totalitários, instituições obscurantistas, por religiões fanáticas e outras aberrações.

Quando ambos os pensadores falam sobre comunicação, dizem do humano em nós. Se a comunicação está inatingível, nossa humanidade está ameaçada. Não há como separarmos uma da outra. Somos seres relacionais.  


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus, Régis Moreira e Túlio Franco

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos, Túlio Franco é psicólogo e Régis Moreira é jornalista.


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