Semana On

Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna Re-existir na diferença

As urnas saíram do armário nas eleições de 2020

Vamos celebrar @s mais de 70 vereadores e vereadoras LGBTQIA+ eleit@s

Postado em 18 de Novembro de 2020 - Régis Moreira

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Coragem!

Própria daquel@s que ousaram romper o rumo do estabelecido

E fizeram história pelas dobras e brechas

Pelas linhas de fuga

Do sistema que oprime

A grande engrenagem esmagadora de sonhos

Não diminui a desobediência civil

Vocês ocuparam

Romperam o estado catatônico  

Dos que seguem achando um escândalo

A força dos que dão novos sentidos aos coletivos

Dando sentido também às próprias existências

Vocês ocupam o valor simbólico dos grandes

Que testemunharam e construíram a história

Com suor, lágrimas, esperanças e lutas

Vocês ocuparão memórias e páginas

D@s que não se calaram

D@s que não se acomodaram

D@s que não se esconderam

D@s que empunharam as bandeiras

E escreveram linhas poéticas

No coração d@s que acreditam

Que a vida vale cada sonho!

Avante!

As urnas saíram do armário nas eleições de 2020. Neste momento, pós resultado das eleições 2020, quero celebrar @s mais de 70 vereadores e vereadoras LGBTQIA+ eleit@s. Só entre as travestis e mulheres e homens transexuais foram 27 candidat@s eleit@s, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). É motivo de muita comemoração e luta, já que para a gente não está dado o descanso por muito tempo, que o couro come, ainda mais quando as urnas revelaram nosso potencial, nunca antes nessa magnitude! É motivo de muito orgulho e festa, sim! Fruto de muitas batalhas dos movimentos sociais, de muito sangue derramado e de muitas esperanças de construção de novos mundos possíveis, onde todos os corpos caibam em sua plenitude e dignidade!  

Estamos celebrando somente as candidaturas fora do armário, os LGBTQIA+ declarados, aquel@s que ousaram mostrar a cara e defender suas existências e a vida de muit@s! Existem muitos outros que ainda enclausuram seus arco-íris no armário empoeirado e mofado da velha política, que não mostram sua cara. “Cada uma sabe a dor e a delícia de ser o que é”, já disse Caetano Veloso, e quem sabe el@s se encorajam da plenitude de suas diferenças a partir de agora. Existem também @s candidat@s LGBTQIA+ eleit@s que não vem dos movimentos de luta e surgem outsiders no palco da política, aproveitando um modismo, uma onda, sem a consciência do que suas candidaturas poderiam significar na vida de muit@s. Nem quero falar desses ou dessas. Ser e se declarar LGBTQIA+, por si só, não traz consciência de suas condições nesta sociedade colonizada e patriarcal. Identidade de gênero e orientação sexual não são sinônimos de bom caráter ou comprometimento com as causas da comunidade LGBTQIA+. É possível ser um LGBTQIA+ e não ter a menor ideia que isso signifique. Ou pior, ser um del@s e negar as condições de subalternidade impostas por essa condição.  A celebração a que refiro, não são das carreiras solo dess@ ou daquele. Refiro-me aos candidatos eleitos, que representam os coletivos de pessoas do movimento social LGBTQIA+, que trazem junto de suas candidaturas milhares de outr@s, que lutam por justiça e por uma sociedade que permita a instauração de novos modos de existência plurais e coloridas. Que já estavam resistindo junto às comunidades LGBTQIA+ e somarão forças mais ampliadas nos poderes, para enfrentamento das pautas sexistas, feminicistas, classistas, machistas, racistas, LGBTQIA+fóbicos, transfóbicos, coloniais. Com ess@s, festejamos e seguimos junt@s!

O que mais me alegra nesse processo democrático são os votos, a confiança que milhares de eleitores depositaram em candidaturas LGBTQIA+. Ao invés dos dedos em riste, das acusações, dos enquadramentos judiciários, das classificações no Código Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS), da vergonha, do descaso, das violências, do ódio, da morte, os eleitores depositaram esperanças na representação e na representatividade dos LGBTQIA+. Isso é uma conquista sem igual! Que nunca ouviu que seria melhor você se esconder no tosco armário ou viver uma vida dupla, porque era vergonhoso ser quem você era? Pois então, as urnas nos dizem ao contrário: acreditamos na potência de contribuição das diferenças e das diversidades que vocês representam! Há uma mudança em curso, mesmo que ainda incipiente, mas muito significativa! No país que mais mata a população LGBTQIA+ no mundo, com crimes de intolerância, fúria e LGBTQIA+fobia; no país que mais assassina travestis e transexuais no mundo, por crimes de ódio, de violências explícitas e transfobia, cuja expectativa de vida em pleno século XXI ainda é de 35 anos. No país que mais assassina ativistas sociais no mundo, que se colocam na luta pelos direitos humanos e direitos dos seres do meio ambiente para além dos humanos. No país que está entre os que mais mata mulheres por crimes de feminicídio. No país que mata o negro periférico, muitas vezes pelas mãos de quem deveria os proteger. No país que mata os indígenas, que queima as florestas, devasta os seres vivos. Sim, esse mesmo país deu uma resposta nas urnas de 2020! Foram eleitas mulheres de luta, indígenas, quilombolas, negros e negras numa proporção que nos faz esperançar, como nos ensinou Paulo Freire. Ter a esperança, para além do esperar, mas com persistência, construindo novos mundos possíveis, para que todas as vidas sejam passíveis de serem vividas, em que todas as vidas sejam valoradas, para que o viver possa ser fruição, no sentido que nos ensina o mestre Ailton Krenak. Essas eleições são mais que ideias, mas ações para adiar o fim do mundo.  Uma pequena resposta das urnas para a vida que, segundo Krenak “é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão imaterial (...) Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem uma definição”. E continua em outro trecho do seu livro A Vida não é Útil: “O tipo de sonho a que me refiro é uma instituição. Uma instituição que admite sonhadores. Onde as pessoas aprendem diferentes linguagens, se apropriam de recursos para dar conta de si e do seu entorno”.    

Esse sonho de apropriar-se dos recursos para dar conta de si e do seu entorno é que nos anima a continuar no horizonte da utopia de um mundo justo, igualitário, consciente, vivível, que não decrete o seu próprio fim, por meio de ações que o destruam, que destruam qualquer ser vivente, mas que ao contrário, preserve, conviva, frua na plenitude de todos os seus direitos à vida. Ao invés dos manicômios, onde muitos LGBTQIA+ foram diagnosticados, classificados,  internados, apartados e esquecidos pelas famílias e sociedade; ao invés dos presídios que historicamente criminalizou as sexualidades consideradas dissidentes; a apropriação em curso é do Poder Legislativo e Executivo. As páginas dos jornais, blogs, redes sociais, matérias de TV, rádio, dessa vez não estampavam a morte, o crime e outras violências contra os LGBTQIA+. O que se viu foram manchetes celebrativas, cheias de orgulho! E não é porque a mídia tornou-se uma senhora benevolente, não. Mas foi porque não deu para omitir, esconder ou não destacar, o que por si só, já era um destaque na história de nosso país! Fomos muit@s, bem votad@s e não teve como mascarar a nova realidade que as urnas escancaram. Quebraram seus armários e as ripas desta quebra de paradigmas, somaram-se às bandeiras de luta dos movimentos sociais. E com as madeiras dos armários construímos e construiremos pontes, rizomas, encontros, em que o sonho de uma nova ordem social seja possível.

A maioria dos LGBTQIA+ eleitos vem de construções de movimentos sociais, coletivos, de luta. Não foi um raio mágico de um unicórnio encantado que caiu sobre a cabeça de escolhidos pela deusa Cher, foi muito mais que isso. @s candidat@s eleit@s já faziam política nos movimentos. Já eram politic@s de longa data, nas bases sociais e nas bandeiras de luta que @s elegeram. Os movimentos sociais são usinas de formação e produção política de transformações sociais. São eles que lutam, tensionam, reivindicam e também elegem para cargos de representação política partidária, os seus representantes. A maioria vem dessa luta política das esquerdas há muito tempo. Sim das esquerdas. Ser LGBTQIA+ da direita é quase nulo em si mesmo. E eu não estou falando em partidos políticos. Nem venham com essa discussão rasa. Quando me refiro à esquerda, refiro-me a uma postura política que luta por mudanças, que não está satisfeito com o mundo que aí está, que deseja que todas as vidas sejam vivíveis. Para mim, isso é ser de esquerda. Ser conservador, ser de direita, é admitir os assassinatos em série a que me referi logo acima.

Os LGBTQIA+ e as populações vulnerabilizadas socialmente estão em processo de ocupação e esse movimento não é de agora. Nossa ocupação é antiga e se dá na interseccionalidade de múltiplos sistemas de opressão, na articulação de raça, etnia, classe e gênero. Nas lutas antirracistas, pelos direitos da população negra e pela igualdade racial reverenciamos os ancestrais Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Nelson Mandela, Dandara, Rosa Parks, Malcon X, Anastácia, Maria Carolina de Jesus, Itamar Assumpção, Yá Mucumby... e tantos outros e outras. Nas resistências e lutas dos povos originários, saudamos Sônia Guajarara, Cristine Takuá, Renata Machado Tupinambá, Daiara Tukano, Célia Xakriabá, Alessandra Korap, Cacique Raoni, entre tantas outras e outros. No necessário e fundamental movimento feminista, evoco Maria da Penha, Leila Diniz, Pagu, Virgínia Wolf, Joana D’Arc, Maria Quitéria de Jesus, Simone de Beauvoir, Bertha Lutz, Rose Marie Muraro, entre tantas outras. Nas ocupações e lutas LGBTQIA+, aclamamos Madame Satã, Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Jean Wyllys, David Miranda, Érica Hilton, Érica Malunguinho, Linn da Quebrada, Daniela Mercury, Renata Carvalho, Liniker, Marielle Franco, entre tantes outres, outras e outros. Enalteço todos as anônimes, anônimas e anônimos destas lutas, que ocupam as frentes das batalhas diárias nas ruas, nos pontos de ônibus, nas filas de emprego, dentro das próprias famílias, nas mídias, nas escolas, nas artes, nos espaços tantos que a vida pede passagem. É um processo irreversível!

Para cada corpo que cai, mil se levantarão. As balas, as facadas, os enforcamentos, os estrangulamentos, os tiros, as fogueiras... só fizeram renascer sementes de luta, que brotaram e florescem feito os girassóis. E seremos primavera! E nossa defesa será para além dos golpes de luta pessoal, nossa defesa será coletiva, nas construções e garantias de políticas públicas inclusivas e reparadoras! Será a somatória das políticas dos movimentos sociais e das representações eleitas para os poderes legislativo e executivo. E vai ter pauta identitária, sim! Porque defendemos mais que identidades, defendemos existências!


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus e Régis Moreira

Emerson Merhy, Ricardo Moebus e Régis Moreira

Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos; Régis Moreira é jornalista.


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