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Sexta-Feira 30.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna Re-existir na diferença

Soberania Alimentar

O resgate dos modos tradicionais e respeitosos de produzir e consumir alimentos tem sido também uma das frentes de retomada dos territórios existenciais dos povos originários, na sua luta pelo direito à vida em diversidade

Postado em 14 de Outubro de 2020 - Ricardo Moebus

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Esta semana em que comemora-se o dia mundial da alimentação, é o momento em que o movimento agroecológico celebra o centenário de Ana Maria Primavesi, um nome ícone do movimento por uma agricultura que resgata o respeito pela Terra, a sustentabilidade ambiental, a preservação da biodiversidade, ao mesmo tempo em que se mantém produtiva e eficiente, conseguindo conciliar a produção agrícola e a proteção ambiental.

Se estivesse viva, Ana Primavesi teria completado 100 anos neste mês de outubro, sendo uma grande precursora do movimento agroecológico, da alimentação orgânica, da produção de alimentos baseada na biodiversidade, no solo vivo, na potência da vida produzindo mais vida, em uma agricultura sintrópica, que multiplica e fortalece a vitalidade do solo enquanto produz alimentos, de forma integrativa.

Com seus estudos sistemáticos sobre o solo vivo desde que formou-se em agronomia, na Escola Rural de Viena, Áustria, há 78 anos atrás, Primavesi dedicou-se a contrapor, desmascarar, desmistificar a chamada “revolução verde”, que industrializou progressivamente o campo ao longo do século vinte, sobretudo após a segunda guerra mundial, com a promessa de multiplicar magicamente a produção de alimentos e acabar com a fome no mundo.

A transformação da arte de cultivar o campo, da relação respeitosa, sagrada e até devocional com o cultivo da terra para a produção de alimentos; em uma agroindústria extrativista, monocultural, mecanizada, industrializada, dependente da indústria química com o uso constante de fertilizantes químicos e pesticidas ou agrotóxicos, transformou radicalmente a relação de todos nós com a alimentação.

Radicalizando ainda mais esta industrialização do campo temos a criação, produção em larga escala dos transgênicos, formando um pacote com a possibilidade de monopolizar a patente de seres vivos, da transformação do alimento em comodities, fazendo com que o agronegócio hoje produza ração-comodities, seja para animais, seja para seres humanos.

Toda esta mudança vem associada a um aumento da violência no campo, a um absurdo aumento da concentração de terras, a um desmanche da agricultura familiar e tradicional, chegando até uma criminalização da produção independente, uma vez que, como sementes transgênicas podem se espalhar, “contaminando” as propriedades vizinhas, os donos de patentes de sementes, passam a exigir de todos os produtores que indenizem a indústria pelo uso de suas sementes.

Especialmente neste momento da política nacional no Brasil, podemos enxergar com mais clareza como uma ampla aliança necropolítica promove a expansão do agronegócio às custas do ataque às comunidades tradicionais, aos povos originários, aos territórios indígenas, às reservas e parques nacionais, ao desmanche da estrutura estatal de preservação e proteção ambiental.

Deste modo, assistimos a este saque sistemático e articulado das últimas áreas de preservação e sustentação do meio ambiente em nosso país, aumentando ainda mais a ameaça de mudança do clima local e global, sob o eufemismo de um “avanço da fronteira agrícola”.

É este mesmo “programa” de desgoverno que inclui em seu pacote a Amazônia em chamas, o Pantanal em chamas, os Parques Nacionais em chamas, o patrimônio natural convertido em cinzas, o “dia do fogo” naturalizado, o protagonismo miliciano na cidade e no campo.

Neste cenário de devastação, tornou-se ainda mais urgente o compromisso de todos e cada um com o consumo consciente de alimentos que possam ser produzidos livres da guerra no campo. Alimentos que sejam produzidos pela agricultura familiar e tradicional são agora, de forma ainda mais contundente, uma trincheira de proteção à vida, de defesa da vida individual e coletiva, de defesa da biossociodiversidade, de defesa do clima, de defesa da própria democracia.

O resgate dos modos tradicionais e respeitosos de produzir e consumir alimentos tem sido também uma das frentes de retomada dos territórios existenciais dos povos originários, na sua luta pelo direito à vida em diversidade, incluindo a soberania alimentar.   


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Emerson Merhy, Ricardo Moebus e Régis Moreira

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos; Régis Moreira é jornalista.


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