Semana On

Domingo 05.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna Re-existir na diferença

Enfrentar o coronavírus com Nelson Rodrigues

Pandemia atacou em cheio a concepção ultra-neoliberal de que a saúde é assunto individual

Postado em 20 de Março de 2020 - Ricardo Moebus

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A pandemia do novo coronavírus atacou em cheio a concepção ultra-neoliberal de que a saúde é assunto individual.

A pandemia desmascarou a ideia ultra-neoliberal de que saúde é um problema pessoal, cada um que banque a sua.

A pandemia demonstrou na prática como a saúde de cada um tem valor para todos.

Cada pessoa contaminada, cada pessoa adoecida é o vírus que avança contra todos nós. A saúde de cada um tem importância para o coletivo humano, isso fica evidente e transparente.

Não se enganem, a despeito de todas as necessárias recomendações para evitar o contágio, o novo coronavírus nos aproxima a todos, reata nossos laços sociais.

Em uma demonstração de aula magna, a novidade viva viral deixa bem claro que saúde pública não é despesa, não é concessão, não é assistencialismo, saúde pública é uma das bases centrais de nossa melhor construção civilizatória.

O SUS combalido, atacado, asfixiado financeiramente, demonstra ser nossa maior âncora de apoio coletivo, nosso pilar central que sustenta de pé nossa sociedade diante do ataque viral.

Nenhum serviço de saúde particular, nenhum plano de saúde, nenhum seguro saúde pode enfrentar o tsunami de demandas de cuidado geradas pela pandemia, a saúde pública aparece como verdadeiro porto seguro indispensável.

As Universidades públicas e centros de pesquisa públicos trabalham freneticamente na produção de respostas possíveis, como antivirais e vacinas; além de divulgarem continuamente informação pública confiável, de qualidade para reduzir o pânico.

Aqueles mesmos que atacavam os serviços públicos, que apostavam na sua desmontagem, que pregavam sua obsolescência, agora pedem socorro: “por favor sejam rápidos na produção de respostas”.

A novidade viral demonstra todo o lado pernicioso das PECs que matam os serviços públicos por sufocamento, estrangulamento financeiro. 

A saúde pública, a educação pública, a produção pública de conhecimento aparecem como nossa melhor e mais preciosa construção civilizatória, como a base de sustentação do valor comum, inalienável, inegociável, a vida, individual e coletiva. Isto em meio a tantos erros, enganos e equívocos que esta mesma civilização tem produzido.

Nelson Rodrigues, com seu peculiar estilo provocativo, em sua peça teatral “Bonitinha, Mas Ordinária”, trazia a “frase do Otto Lara Resende: O mineiro só é solidário no câncer”.

A pandemia viral nos aproxima, reata fortemente nossos laços de solidariedade. Grande oportunidade para alimentarmos esta solidariedade e darmos continuidade a ela para além da crise viral, na construção do comum.

Temos que superar a “frase do Otto”, não podemos ser solidários apenas neste momento crítico do ataque viral e adoecimento coletivo, temos que enxergar aí, agora, que o projeto privatista que quer destruir a saúde pública, a educação pública, a ciência pública é um projeto que para alguns olhares pode até parecer “bonitinho”, mas certamente é mesmo “ordinário”.                         


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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