Semana On

Terça-Feira 10.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna Re-existir na diferença

Saúde e Alegria em Tempos Sombrios

Ensaios para um estado excepcional

Postado em 27 de Novembro de 2019 - Ricardo Moebus

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Alter do Chão é um lugar lindíssimo, nos arredores de Santarém, no meio da Floresta Amazônica. É o principal balneário do estado do Pará, sem diminuir os outros tantos com suas raras belezas. Mas Alter do Chão ganhou fama, com suas águas cristalinas, suas praias de água doce, de rio banhadas pelo Tapajós. Com seu nome de poema de Florbela Espanca.

Claro que tamanha beleza atraiu milhares de turistas, imensa maioria deles vindos dos grandes centros urbanos, trazendo um padrão de consumo absolutamente incomum para a região.

Se por um lado, o turismo trouxe uma divulgação das “belezas naturais”, também reconhecidas como “riquezas naturais”, despertando o interesse e a “consciência” da necessidade de preservação ambiental, atraindo inclusive muitos ambientalistas e ONGs ambientalistas para a região, apaixonados pelo lugar, desejantes de dedicar seu trabalho e vida para a preservação daquele “tesouro” que tiveram a sorte de conhecer.

Pois foi assim que muitos jovens idealistas acabaram migrando para a região, deixando para trás a vida extremamente competitiva e desgastante da realidade urbana de grandes ou médias cidades.

Por outro lado, este mesmo “deslumbramento” do lugar, com um assédio gigantesco de turistas, atraiu a sanha de muitos grileiros e da especulação imobiliária, que passou a ver as terras dali como uma “mina de ouro”.

Desde pelo menos 2015 a Polícia Federal investiga a ação de grileiros invadindo, ocupando e desmatando terras públicas da União naquela região.

Em setembro deste ano, a onda gigante de incêndios na Amazônia, incluindo o chamado “Dia do Fogo”, anunciado abertamente, por exemplo no município de Novo Progresso, no Pará, também atingiu intensamente a região de Alter do Chão, que foi varrida por incêndios.

A região, como de resto quase todo o Pará, já vem sendo vitimada por grileiros, madeireiros, especulação imobiliária, loteamentos privados que se erguem em áreas públicas, em áreas de proteção ambiental, depois de desmatadas e queimadas.

O “Projeto Saúde e Alegria”, ONG ambientalista que atua na região, vem denunciando estes ataques de grileiros e loteamentos ilegais na região. Vem trabalhando em defesa dos territórios tradicionais.

Investigações vieram sendo feitas desde o “setembro de fogo”, também pela Polícia Civil do Estado do Pará.

Depois de interceptar algumas conversas telefônicas, construir algumas conjecturas, suspeitar de alguns recibos, esta semana, a Policia Civil prendeu quatro brigadistas da Brigada de Alter do Chão e invadiu a sede da “ONG Projeto Saúde e Alegria” para busca e apreensão de documentos, computadores etc.

Parece que as investigações apontaram que não foram os grileiros, não foram os ruralistas, não foram os especuladores imobiliários, não foram os invasores de terras públicas que atearam fogo na floresta.

Segundo as investigações, podem ter sido os brigadistas, da Brigada de combate a incêndios de Alter do Chão, que atuam há anos junto aos bombeiros, juntamente com as ONGs ambientalistas, os defensores da floresta, talvez em conluio com a a consagrada “ONG WWF- Brasil”, que teria comprado uma foto de floresta pegando fogo, supostamente para mostrar para o Leonardo di Caprio, intencionando uma vultuosa doação do sensibilizado ator.

Esse enredo todo, lembrando algum roteirista decadente de novela, veio à tona nesta “Black Tuesday” de ataques ao movimento ambientalista.

O Brasil cada dia parece mais próximo do Surreal” de uma “Macondo” de Gabriel Garcia Marques, porém, administrada por algum tipo de personagem como o clássico “Odorico Paraguaçu”.

Vale lembrar que na época dos incêndios de setembro, curiosamente, o próprio Presidente da República já havia “cantado esta pedra”, insinuando que “esses ongueiros” poderiam estar ateando fogo na floresta, para criar algum tipo de comoção internacional contra seu governo.

Também quando do derramamento de petróleo cru atingindo todo o litoral nordestino, o Ministro do Meio Ambiente, insinuou, em redes sociais, que havia um navio do Greenpeace por ali, naquela ocasião. Quem sabe não estaria o Greenpeace escondendo um navio petroleiro inteiro na cabine do capitão?

Algum tempo depois, ativistas ambientais foram presos em protesto em frente ao Palácio do Planalto.

O mesmo Minsitro do Meio Ambiente nesta ocasião atacou abertamente chamando os ativistas de “ecoterroristas”, também reiterou que não recebe os ambientalistas porque não conversa com “terroristas”.

Pode parecer apenas bravata à primeira vista, mas escolher o termo terrorista lembra muito bem a estratégia norte americana de construção de um “Estado de Exceção” em nome da luta contra o “terrorismo”.

Defender o meio ambiente, protestar contra uma política ambiental absurdamente contra o meio ambiente, quando passa a ser chamado de “ecoterrorismo”, isso abre as portas para a criminalização do movimento ambientalista.

Nesta escalada de criminalização dos movimentos sociais, de criminalização da luta política e social por direitos, de criminalização dos protestos públicos e populares, de criminalização das reivindicações estudantis, de criminalização do movimento negro e do movimento indígena; chega agora a vez da criminalização também desta modalidade de defesa da vida, criminalização da própria luta ambientalista, como último entrave diante da tomada absoluta pelo “Mercado” dos últimos redutos remanescentes de patrimônio público ambiental, de territórios tradicionais, de vida silvestre, de floresta viva.

Em seu site o “Projeto Saúde e Alegria” declara:

O Projeto Saúde e Alegria – PSA – é uma instituição civil sem fins lucrativos que atua em comunidades tradicionais da Amazônia desenvolvendo programas integrados na área de organização social, saúde, saneamento básico, direitos humanos, meio ambiente, geração de renda, educação, cultura e inclusão digital, visando melhorar a qualidade de vida e o exercício da cidadania. A Arte, o Lúdico e a Comunicação são seus principais instrumentos de educação e mobilização social.”

Ali apresenta farta documentação, imagens etc, de seu belo trabalho de mobilização social e cultural em defesa dos territórios tradicionais. Sim, defesa de territórios tradicionais, inclusive indígenas.

Os Indígenas da região de Alter do Chão, através da associação Iwipuragã do povo Borari, se manifestaram em solidariedade aos brigadistas presos:

"A brigada de Alter sempre atuou em defesa do nosso território, conhecemos a seriedade do trabalho e honestidade dos nossos brigadistas. Entendemos que estas acusações fazem parte de uma estratégia para desmoralizar e criminalizar as ONGs e movimentos sociais de forma caluniosa, áudios fragmentados, circulados fora do contexto, replicam um método já conhecido de influenciar a opinião pública, na tentativa de tornar fato acusações que ainda não foram comprovadas"

Também a “Anistia Internacional”, o “The Intercept Brasil”, a “WWF-Brasil”, O Ministério Público, vários outros órgãos de imprensa, manifestaram seu estranhamento com a prisão dos ambientalistas e o ataque à sede da ONG.

Parece que a repercussão acabou sendo maior que o “esperado” para a prisão de quatro “ongueiros”. E finalmente no final desta quinta feira 28 de novembro os quatro brigadistas foram libertados.

Mas, se por acaso esta atitude pretendia servir como mais um “tubo de ensaio” para ir testando a tolerância social à construção lenta e gradual de um “Estado de Exceção”, está mais que na hora de todos saírmos solidariamente em protesto e defesa do movimento ambientalista que ainda re-existe, com Saúde e Alegria, apesar dos tempos sombrios que ora vivemos.


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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