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Segunda-Feira 03.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna Re-existir na diferença

Narrativas de Re-existência no Cotidiano

A simples vida no cuidado e no governo de si, não cafetinada, tornou-se nestes dias um ato heroico

Postado em 20 de Novembro de 2019 - Ricardo Moebus

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Suely Rolnik, em seu livro “Esferas da Insurreição – Notas para uma vida não cafetinada”, nos diz:

“Períodos de convulsão são sempre os mais difíceis de viver, mas é neles também que a vida grita mais alto e desperta aqueles que ainda não sucumbiram integralmente à condição de zumbis – uma condição a que estamos todos destinados pela cafetinagem da pulsão vital.”.

Navegar novas narrativas nesta batalha naval informacional constante e ininterrupta, produzindo estas narrativas como estratégia de anti-naufrágio pessoal e coletivo.

“Emicida em seu novo disco “AmarElo” avisa cantante e cortante: no Brasil “existe pele alva e pele alvo”.

Parece que o momento tão difícil que atravessamos, tanto aqui quanto alhures, tem mesmo acionado muitas forças criativas, como assinalou Rolnik.

Vejamos estes quatro filmes exemplares neste ano de 2019, que trazem consigo esta ideia de uma forte resistência micropolítica: o brasileiro: “Bacurau”, de Kleber Mendonca Filho e Juliano Dornelles, o argentino: “A Odisséia dos Tontos “, de Sebastián Borensztein, o coreano “Parasita”, do sul-coreano Bong Joon-ho, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2019, o argelino “Papicha” (França/Argélia/Bélgica/Qatar) de Mounia Meddour.

Em todos eles, em suas absolutamente distintas histórias, aparecem personagens francamente determinados a re-existir no combate cotidiano por manterem seus modos de vida, ou de todo modo, lutando para se manterem vivos.

As tramas claro, são multivariadas e multifacetadas, mas quero destacar um amar-elo comum em todos eles, seja na Argél tomada pelo fascismo sectarismo religioso; seja no interior da Argentina, com sua gente simples torturada pelo confisco de todas suas economias no início dos anos 2000, aliás, remake do feito no Brasil pelo presidente Collor de Melo; seja no interior do sertão nordestino brasileiro, com sua gente de tradição de luta pela vida em condições as mais hostis, no caso do filme, acrescido com requintes da crueldade de turistas sanguinários; seja nos porões inundados dos bairros pobres da bem sucedida Coréia do Sul.

Não parece coincidência que este ano tenha sido tão produtivo de filmes que mostram a gente simples e pobre e subjugada e aparentemente sem saída, pessoas comuns, em situações críticas, absolutamente desfavoráveis, mas que persistem em re-existir na marcação de seu ritmo próprio, de sua diferença, buscando não mais seus direitos, mas buscando viver.

Não é mais em nome ou em busca de direitos que se luta, parecem ter-se esgotado, se exaurido totalmente as antigas narrativas, épicas ou sentimentais, daqueles que apostavam ou lutavam ou até mesmo construíam, heroicamente, uma sociedade mais justa, ou um governo mais honesto, ou um regime mais justo. As narrativas agora são da luta incruenta e direta pela vida, é em nome da vida que se empreende o combate, não mais por direitos.

Parece que tais filmes anunciam que é preciso que os heróis cedam seu lugar nas narrativas deste mundo, que os grandes heróis, que os “grandes homens” cedam seu lugar nas narrativas deste tempo, cedam seu lugar para essa gente simples, em suas vidas cotidianas que ocupam as telas.

Somos nós?

Cada um de nós em nossa re-existência necessária e inadiável perante o absurdo totalitário que avança sobre nossas vidas, nossas cabeças, nossos sentimentos e pensamentos?

Parece um chamado para que possamos ocupar, porque precisamos ocupar esta praça narrativa, de defesa diária do direito de seguir vivendo, passando por cima dos abusos cada vez maiores da grande máquina de moer gente, em que se converteram os sistemas político-econômico-jurídico-financeiro-carcerário-policial-religioso na imensa maioria do mundo.

Manter o brilho do olho que acende a senda a acena para vida.

Manter a alegria e a vontade de viver a própria vida.

A simples vida no cuidado e no governo de si, não cafetinada, tornou-se nestes dias um ato heroico.


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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