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Quinta-Feira 12.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna Re-existir na diferença

A violência de estado tem se acentuado a cada dia

Quando a polícia e as forças armadas são sócias do neoliberalismo, violentar é demonstração de resultado

Postado em 30 de Outubro de 2019 - Emerson Merhy

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A violência de estado tem se acentuado a cada dia.

É só abrirmos qualquer veículo de notícias e lermos o quanto soldados e policiais praticam atos violentos contra variados grupos sociais. Basta qualquer manifestação que coloca em cheque, mesmo que pacificamente, os donos do poder de estado, que as forças armadas e policiais saem dando porradas e tiros, quando não humilham os manifestantes, inclusive violentando-os.

Tomando o Chile como o exemplo mais recente, vemos que há anos o regime ditatorial pinochetista e os governos, mesmo eleitos, que o seguiram, colocaram as forças policiais e armadas como sócias do regime neoliberal, que perversamente se implantou nesse país desde o governo de Pinochet, apoiado claramente pelas forças capitalistas dos setores financeiros mundiais e pelas grandes corporações americanas e europeias.

Enquanto o governo ditatorial destruía os direitos sociais, como saúde, educação e previdência social, ao mesmo tempo produzia castas privilegiadas no aparato estatal como suas sócias, além das grandes benesses ao setor financeiro ao transferir para os bancos, privados de preferência, o volumoso recurso financeiro do sistema de Previdência Social.

A agregação de outros sócios aconteceu estabelecendo carreiras e previdências privilegiadas para os grupos militares, em geral, e para os componentes do sistema jurídico, bem como a manutenção de privilégios para os grupos políticos e partidários, em especial os que apoiavam sob qualquer circunstâncias essas construções. Além desses, há também os sócios que compõem uma elite local que usufrui do financismo, que desloca riquezas dos mais empobrecidos para os mais bem aquinhoados.

Essa combinação de sócios do regime neoliberal, que só se sustenta com práticas violentas contra os seus opositores, instituiu uma aliança de ferro entre esses agrupamentos: os componentes da chamada sociedade política (executivo, judiciário, legislativo e forças policiais em geral), os representantes dos interesses do sistema financeiro internacional, as grandes corporações capitalistas mundiais, alguns grupos sociais locais, o que reserva um lugar bem especial para aparato jurídico e o militar, para sustentar a sua natureza violenta com fachada de legalidade.

Aqui, no Brasil, esse movimento vem sendo seguido passo a passo.

O aparato jurídico já constitui uma casta privilegiada há algum tempo, inclusive com apoio dos chamados governos democráticos populares, que não souberam ler esses processos. E, agora, está se fechando o cerco com a aprovação do pacote da previdência retirando os direitos da maioria, mas dando privilégios para as forças militares, em geral, e apostando pesado em sua financeirização.

Esse processo vai instituir o que vimos acontecer em vários outros países e por muito tempo lamentaremos essa construção, até que o desgaste ou o empobrecimento radical leve o brasileiro a ficar furioso nas ruas, pois não terá nada mais a perder. Como dizem muitos chilenos e chilenas, hoje em dia, pois lhes tiraram tudo, que nem medo têm mais.

Quando essa grande sociedade entre parceiros - que se consideram interessados no andamento e aprofundamento dos projetos neoliberais, pois só tem a ganharem com isso -, se aprofunda, sabemos que todos nós que estamos perdendo, seremos seus alvos preferenciais para suas violentas ações, bancadas pelo estado da forma mais vil possível, nossas vidas não valerão nada mais que o capital em geral possa dar de valor para cada uma. E, se valor não existir, podemos e seremos eliminados como moscas, até nos rebelarmos.

A grande prestação de serviço das forças policiais, para esses seus novos patrões e aliados, é gerar violência contra todes aqueles que não interessam para o sistema capitalista financista ou a ele se contraponham.

Até quando isso durará, não sabemos. Talvez, até quando o medo não for mais uma moeda de troca para a imensa maioria dos desprivilegiados e os próprios fake news não terão, então, mais efeitos.


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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