Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna Re-existir na diferença

UBU-REI Tropical

As caricaturas tomaram o poder

Postado em 11 de Outubro de 2019 - Ricardo Moebus

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Nunca foi tão oportuna para nós a peça “UBU-REI”, de Alfred Jarry, como no atual cenário nacional.

A culpa é dos chargistas/cartunistas, as caricaturas tomaram o poder.

Laerte, Henfil, Glauco, Chico, Paulo Caruso, Angeli, Aroeira e outros tantos criativos, inventaram caricaturas incríveis, resvalando e re-existindo, mesmo nos piores tempos de censura. Hoje, elas circulam de carne e osso e dominam a cena abaixo da linha do ecuador, sobretudo em Brasília. Realismo fantástico de Macondo? Ou talvez algum tipo de “Sulrealismo”.

“Pai Ubu: Para começar, vou reformar a justiça. Depois procederemos às finanças.”

Na peça de Alfred Jarry, o protagonista “Pai Ubu”, é um governante tão absurdamente brutal, para dizer o mínimo, que a peça é considerada inaugural do “Teatro do Absurdo”, em fins do século XIX.

“Pai Ubu: Ah! Droga! A razão e a falta de razão não valem a mesma coisa? Ah! Você está me ofendendo, Mãe Ubu. Vou te picar em pedacinhos.”

No mesmo dia de setembro em que nosso “Pai Ubu” tropical lançava suas pérolas em conferência da Organização das Nações Unidas – ONU, era coincidentemente lançado pelo CIMI – Conselho Indigenista Missionário, seu “Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil”, edição 2018.

Já no artigo de apresentação do Relatório, Dom Roque Paloschi, presidente do CIMI e arcebispo de Porto Velho, faz as seguintes considerações:

“Os povos indígenas são, historicamente, vítimas do Estado brasileiro porque, através das instituições que representam e exercem os poderes político, administrativo, jurídico e legislativo, ele atua, quase sempre, tendo como referência interesses marcadamente econômicos, e não os direitos individuais, coletivos, culturais, sociais e ambientais. A gestão pública é parcial, pois toma como lógica a propriedade privada, contrapondo-se à vida, ao bem-estar e à dignidade humana”.

Os dados do Relatório mostram que houve um expressivo aumento da violência, ainda que o próprio CIMI reconheça que sejam dados subestimados, já que a metodologia de levantamento dos dados não é exaustiva, e o CIMI não tem acesso a todos os territórios indígenas nesta coleta dos dados.

“No Brasil existem atualmente 305 povos indígenas, falando mais de 274 línguas (IBGE, 2010), habitando 1.290 terras indígenas, sendo 408 homologadas e 821 em processo de regularização e/ou reivindicadas. As terras indígenas – demarcadas ou não – em sua quase totalidade, encontram-se invadidas, depredadas e em processo de profunda devastação. Há, também, a inaceitável condição de centenas de comunidades indígenas que vivem sem terra, nas margens de rodovias ou acampadas em diminutas parcelas de terras estaduais ou municipais, em áreas degradadas e contaminadas pela poluição ou por agrotóxicos.”

A análise dos dados de violência contra os indígenas também aponta que não só houve um aumento quantitativo, mas também houve uma degradação qualitativa, com um projeto amplamente articulado de desterritorialização dos povos indígenas e uma reedição da antiga e nefasta proposta de “integração” dos indígenas, forçando-os pela violência a abandonarem seus modos de vida.

Na ocasião do lançamento do relatório 2018, sempre os relatórios saem no ano seguinte após um tempo de processamento e análise dos dados, o CIMI resolveu este ano também apresentar os dados preliminares do aumento ainda maior da violência nestes primeiros nove meses de 2019.

A decisão de apresentar uma prévia, não analítica, dos dados de 2019, se deu em virtude da gravidade da situação que vivemos atualmente no Brasil.

“No último ano foram registrados 111 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio”, enquanto em 2017 haviam sido registrados 96 casos. Nos nove primeiros meses de 2019, dados parciais e preliminares do Cimi contabilizam, até o lançamento do relatório, 160 casos do tipo em terras indígenas do Brasil.

Também houve um aumento no número de assassinatos registrados (135) em 2018, sendo que os estados com maior número de casos foram Roraima (62) e Mato Grosso do Sul (38). Em 2017, haviam sido registrados 110 casos de assassinatos.

Se já não bastasse o aumento monstruoso da violência dos dados apresentados pelo relatório de 2018, a apresentação dos dados preliminares de 2019 mostra que em nove meses ocorreram 160 casos de invasão em 153 terras indígenas, em 19 estados; e no ano completo de 2018 ocorreram 111 casos em 76 terras indígenas, em 13 estados, ou seja, um aumento tão expressivo que merece sem dúvida usarmos este terrível termo para descrever a nossa triste realidade nacional: genocídio.

Isto se confirma se consultarmos a plataforma “CACI – Cartografia de Ataques Contra Indígenas”, sigla que equivale a um termo que em guarani significa “dor”. A “CACI” é um mapa digital sobre assassinatos de indígenas no Brasil, que após ser atualizado com os dados do Relatório de Violência contra Povos Indígenas de 2018, passou a contabilizar em seu quadro informações sobre 1.119 casos de assassinatos de indígenas no Brasil.

Certamente genocídio fruto do exercício dos “podres poderes”, como bem cantou Caetano Veloso:

“Será que nunca faremos senão confirmar

A incompetência da América católica

Que sempre precisará de ridículos tiranos?

Será, será que será que será que será

Será que essa minha estúpida retórica

Terá que soar, terá que se ouvir

Por mais zil anos?


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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