Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna Re-existir na diferença

Bacurau

Performances Indígenas de Re-existência

Postado em 18 de Setembro de 2019 - Ricardo L. N. Moebus

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Bacurau, do Tupi-Guarani, mbaé = coisa, bicho; curau = que volta a cabeça.

Talvez mais conhecido como curiangu ou curiango, joão-corta-pau, joão-mede-léguas, é aquela corujinha que fica no chão, por isso mesmo, “bicho que volta ou gira a cabeça”. 

Já começa pelo nome, a série de referências que podemos encontrar neste genial e já consagrado filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles a uma resistência que podemos chamar de “indígena”.

Pensando aqui este filme como uma celebração da re-existência do povo de um lugar, neste sentido é que queremos falar em re-existência “indígena”, esclarecendo que esta definicão de indígena nos remete ao debate, como expõe Daniel Munduruku em seu blog:

“Por outro lado o termo indígena significa “aquele que pertence ao lugar”, “originário”, “original do lugar”. Se pode notar, assim, que é muito mais interessante reportar-se a alguém que vem de um povo ancestral pelo termo indígena que índio. Neste sentido eu sou um indígena Munduruku e com isso quero afirmar meu pertencimento a uma tradição específica com todo o lado positivo e o negativo que essa tradição carrega e deixar claro que a generalização é uma forma grotesca de chamar alguém, pois empobrece a experiência de humanidade que o grupo fez e faz. É desqualificar o modus vivendis dos povos indígenas e isso não é justo e saudável.”

Também Eduardo Viveiros de Castro, em seu texto “Os Involuntários da Pátria – elogio do subdesenvolvimento”, nos ajuda a esclarecer este ponto central dos “indígenas” do Brasil:

“Índios são os membros de povos e comunidades que têm consciência — seja porque nunca a perderam, seja porque a recobraram — de sua relação histórica com os indígenas que viviam nesta terra antes da chegada dos europeus. Foram chamados de “índios” por conta do famoso equívoco dos invasores que, ao aportarem na América, pensavam ter chegado na Índia. “Indígena”, por outro lado, é uma palavra muito antiga, sem nada de “indiana” nela; significa “gerado dentro da terra que lhe é própria, originário da terra em que vive”. Há povos indígenas no Brasil, na África, na Ásia, na Oceania, e até mesmo na Europa. O antônimo de “indígena” é “alienígena”, ao passo que o antônimo de índio, no Brasil, é “branco”, ou melhor, as muitas palavras das mais de 250 línguas índias faladas dentro do território brasileiro que se costumam traduzir em português por “branco”, mas que se referem a todas aquelas pessoas e instituições que não são índias. Branco é um conceito político, não cromático ou “racial”, ainda que a escolha da cor branca nada tenha de arbitrário no batismo do conceito. (“Os brancos”, como disse um pensador karajá, povo do Brasil Central, “são um povo que se caracteriza por não ter cultura.”) As palavras índias que os índios traduzem por “branco” têm vários significados descritivos, mas um dos mais comuns é “inimigo”, como no caso do yanomami napë, do kayapó kuben ou do araweté awin.

Podemos partir então dessa redescoberta de muitos de nós, mas não todos, como possíveis “indígenas” deste lugar?

Neste mesmo citado texto, Eduardo Viveiros de Castro esclarece ainda mais:

Essa condição de súdito (um dos eufemismos de súdito é “sujeito [de direitos]“) não tem absolutamente nada a ver coma relação indígena vital, originária, com a terra, com o lugar em que se vive e de onde se tira seu sustento, onde se faz a vida junto com seus parentes e amigos. Ser indígena é ter como referência primordial a relação com a terra em que nasceu ou onde se estabeleceu para fazer sua vida, seja ela uma aldeia na floresta, um vilarejo no sertão, uma comunidade de beira-rio ou uma favela nas periferias metropolitanas. É ser parte de uma comunidade ligada a um lugar específico, ou seja, é integrar um povo. Ser cidadão, ao contrário, é ser parte de uma população controlada (ao mesmo tempo “defendida” e atacada) por um Estado. O indígena olha para baixo, para a Terra a que é imanente; ele tira sua força do chão. O cidadão olha para cima, para o Espírito encarnado sob a forma de um Estado transcendente; ele recebe seus direitos do alto. Como sabemos, o Estado é antes de mais nada um estado de espírito. É, enfim, sempre o Estado do Espírito, no sentido hegeliano. Os espíritoS dos povoS, os povos de espíritos que habitam o espírito (e o corpo) dos povos indígenas são de outra e inteira diferente natureza, ou melhor, sobrenatureza.”

Bacurau vai apontar para a força de re-existência do povo de um lugar contra os alienígenas que ali aportam, amparados pelo apoio entreguista do “governo local” representado pelo prefeito, figura simbólica do político-patético, representante mor deste “Estado de Espírito”.

O povo próprio do lugar, por sua vez, vai expressando uma política própria cotidiana horizontal, inclusive de partilhamento do que o tal prefeito lhes traz e lhes trai, chegando até o ponto da guerrilha local.

Bacurau nos ajuda a pensar estas abertas possibilidades “indígenas” brasileiras, inclusive da incessante guerrilha cultural, das muitas trincheiras vivas cavadas pelos tantos povos do Brasil.

Se o movimento “transgênero” tem nos ajudado tanto a aprender e entender que o masculino e o feminino estão absolutamente longe de uma determinação biológica, que tanto o ser masculino quanto o ser feminino são uma performance de gênero, uma performance social, sócio-cultural, psico-sócio-cultural-existencial...

Então, agora Bacurau pode nos ajudar a entender como ser “branco”, neste Brasil, não é de modo algum uma questão apenas cromática, racial, biológica ou genética, mas uma performance social, uma performance étnico-sócio-cultural-psico-existencial-político-estética.

Esta discussão aparece o tempo todo no filme, ganhando voz mais explícita na cena em que os americanos alienígenas estão sentados à mesa com dois brasileiros do “sul maravilha”, “colaboracionistas”, que tentam demonstrar que são “brancos” o bastante, “brancos” o suficiente, para estarem naquele seleto grupo de abusadores do mundo.

O desfecho da cena é genial, um recado bem dado, no melhor “estilo Tarantino”, que os diretores enviam à “elite do atraso” que comanda este país sob a batuta do desmando.

Com Bacurau podemos pensar este movimento “trans-étnico”, que pode nos ajudar a reencontrarmos nossas performances “indígenas” de re-existência.   

Neste sentido é que encontramos no filme a verdadeira aparição de Lia de Itamaracá, como representante maior da identidade, da entidade cultural mais autêntica e própria daquele lugar.

Lia como entidade “indígena”, negra, pernambucana, nordestina, brasileira, por excelência, signo maior de uma re-existência sócio-político-cultural-vital a toda prova.

Neste mesmo sentido ampliado é que temos o prazer de reencontrarmos, em Bacurau, Sônia Braga, representante do “corpo” próprio deste lugar, e, também, de uma estética do direito ao envelhecimento deste corpo.

Sim, Sônia Braga aparece como representante da estética do envelhecimento, uma estética dissonante, uma voz que desafina o coro de um Brasil que vive fascinado, siderado pelas supostas imagens de uma “eterna juventude”, um Brasil campeão mundial da cirurgia plástica, um Brasil que se acredita ser do “sucesso” e do “progresso”, portanto, tendo inclusive o privilégio de não envelhecer.

Ao contrário, Sônia aparece, como sempre, na estética do direito de dispor do próprio corpo, de posse do próprio corpo, de viver o próprio corpo como ele é e está. Seja aparecendo nua em cena em 1968, aos 18 anos, na montagem brasileira de “Hair”; seja de cabelos brancos e enrugada aos 69 anos em 2019. Ela continua surpreendente, arrombando as portas do esperado, um escândalo.

Sônia de Bacurau vem portadora de uma estética que assusta um Brasil que tem a desfaçatez e a arrogância de zombar da maturidade da primeira dama francesa, estética de uma coragem de viver tanto o corpo próprio deste lugar, quanto o lugar e o tempo próprio deste corpo.

Neste sentido, um corpo “indígena”, buscando a “retomada” do próprio corpo, como território soberano de si mesmo, como tão bem explicitou a “Marcha das Mulheres Indígenas” que avançou sobre Brasília em agosto e sobre São Paulo neste setembro.

Temos ainda em Bacurau uma importante referência a um “poderoso psicotrópico”, chamado assim nas palavras do professor de Bacurau, usado pelo povo próprio do lugar.

Considerando que estamos em Bacurau, no interior de Pernambuco, podemos logo associar este “psicotrópico” com a forte tradição de re-existência “indígena” do uso popular da “Jurema”.

Tradição da Jurema, dos “juremeiros”, que engloba várias etnias indígenas, e outros tantos povos próprios daqui, “indígenas” neste sentido ampliado.

Entre estes povos temos o belo exemplo dos Fulni-ô.

Em evento de agroecologia, agricultura familiar e orgânica em São Carlos, neste mês de setembro, representantes dos Fulni-ô, encerraram uma apresentação cultural, de suas músicas, cantos e danças tradicionais, com a seguinte mensagem ao público:

-

“A Resistência, ela é feita todos os dias,

a Resistência, ela é feita do nosso prato,

do nosso prato ao nosso banho,

a Resistência é feita todos os dias.”

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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