Semana On

Sexta-Feira 15.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna Re-existir na diferença

São Paulo

Cidade Indígena Piratininga

Postado em 04 de Setembro de 2019 - Ricardo Moebus

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Piratininga, do tupi guarani, pira = peixe, e tininga = seco.

Assim os povos indígenas, que ali viviam, chamavam o local onde hoje está a cidade de São Paulo.

O rio Tietê, que em tupi significa caudal, volumoso, era limpo e tinha muito peixe. Quando transbordava, na época das cheias, deixava em sua várzea muitos peixes “encalhados”, secando ao sol. Era o momento de muita festa com aquela fartura de peixes ao alcance das mãos.

O padre José de Anchieta, maravilhado com aquilo, descreveu épocas em que até “12 mil peixes”?! estavam ali secando ao sol, como um presente do grandioso Tietê para seus afortunados afilhados indígenas, que o admiravam, veneravam e respeitavam.

Em 1554 quando o padre Manuel da Nóbrega e o então noviço José de Anchieta chegaram, Piratininga era habitada por cinco aldeias. O colégio jesuíta, que seria conhecido como “Real Colégio de São Paulo de Piratininga”, foi construído na aldeia de Tibiriçá, onde hoje é o sítio arqueológico “Pátio do Colégio”.

O cacique tupiniquim Tibiriçá foi um dos mais importantes “colaboracionistas” defensores dos jesuítas. Foi convertido e batizado com o nome de Martim Afonso, passando a se chamar Martim Afonso Tibiriçá.

Lutou contra outros grupos e aldeias indígenas em defesa dos jesuítas, em defesa dos portugueses, chegando a matar seu próprio irmão Piquerobi e seu sobrinho Jaguaranho no episódio conhecido como “Cerco de Piratininga”, em 1562, quando a então “Vila de São Paulo de Piratininga” viveu um ataque, um levante e resistência indígena, confluindo Tupis, Guaianás e Carijós, contra a escravidão praticada pelos colonizadores.

Agora em 2019, neste dia 05 de setembro, Dia Internacional das Mulheres Indígenas, avançou sobre Piratininga a “3a Marcha das Mulheres Indígenas de São Paulo”, com o tema “Mulheres Indígenas – Lutar é Resistir”, reverberando a “1a Marcha das Mulheres Indígenas” acontecida neste recente agosto, em Brasília, quando se encontraram com a “Marcha das Margaridas”.

O levante das “Mulheres Indígenas de Piratininga” espantou a Megalópole São Paulo. Elas, as primeiras e sempre “Involuntárias da Pátria”, para lembrar a genial expressão de Eduardo Viveiros de Castro, reafirmaram sua heterotopia fundamental neste cenário patriarcal-nacional.

Confluindo com isto, uma comitiva saindo do “Território Indígena Tupinambá de Olivença”, desde Ilhéus/Bahia, já está em São Paulo, para o evento “São Paulo: Cidade Indígena – Taba Piratininga Tupy”.

Um ataque semiótico, novamente o povo Tupinambá, símbolo de re-existência irredutível ao colonizador português, lembrando o grande chefe Cunhambebe, que teria devorado mais de sessenta portugueses, agora buscando resgatar memórias, reminiscências, resquícios, lembranças indígenas soterradas pela metrópole. Diz o chamado do evento:

“São Paulo: Cidade Indígena! Em setembro pisaremos nestas terras com as forças de tupã, Ïacy, das Encantadas das matas e águas.... Paulicéia será também Taba Piratininga Tupinambá e seguraremos o Céu pra não cair!”

O evento prevê caminhadas com reconhecimento de memórias indígenas no território, realização de rituais, pajelanças, palestras, marcando e demarcando a presença indígena em Piratininga, no passado, no presente e no futuro pós 2019.

Ano 463 da deglutição do Bispo Sardinha, Bispo do Brasil, devorado em 1556 pelos índios Caetés na então Capitania de Pernambuco, para fazermos coro ao manifesto de Oswald de Andrade, Manifesto Antropofágico de 1928, que já insistia no nome Piratininga como sinônimo de São Paulo.

Mas nem os modernistas imaginaram os novos índios baianos passeando na sua garoa, sonhando em resgatar um Tietê devastado e aniquilado, onde em suas margens ainda se poderá algum dia “curtir numa boa”.

Sim, manifesto indígena, mani-festa antropofágica, regurgitando tantas memórias de infinitos suplícios sofridos pelos povos indígenas, mas também mantendo vivo todos os auspícios de uma virada do tempo do esquecimento, revirando a terra do apagamento, para um tempo de re-existência indígena mais abertamente presente, com mais capacidade de vocalizar sua presença.

Presença indígena ampliando nossa subjetividade local, nacional, em Piratininga e em toda parte, como diz Ailton Krenak em seu “Idéias Para Adiar o Fim do Mundo”:

“Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe também uma por consumir subjetividades – as nossas subjetividades. Então vamos vivê-las com a liberdade que formos capazes de inventar, não botar ela no mercado. Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência”.

Os Tupinambá de Olivença resgatando a poética indígena que subjaz em Piratininga. Que subjaz em muitos de nós mesmos, nesta fraternidade difusa, insuspeitada, de “Involuntários da Pátria”, como citado acima.

Setembro primavera indígena? Nem tanto, mas podendo fazer florescer subjetividades ressequidas por um céu já obscurecido por queimadas de florestas, de ideias, de modos de vida.  

Os Senhores do mundo querem queimar nossas subjetividades na fornalha do consumismo cego. Reduzindo cada vida, cada modo próprio de estar vivo em apenas mais um consumidor, indiferente a tudo e a todos.

Afetar-se, deixar-se atingir pelo sofrimento ou prazer do outro, experimentar a alteridade, permitir-se sentir e estar na presença do outro, na existência e re-existência do outro em mim mesmo, é cada vez mais um dever (r)evolucionário.

Mas saltando da indiferença, vamos ver brotar a índio-diferença, fazendo uma guinada civilizatória, nesta nau sem prumo, que vai de mal a pior.  

Os Tupinambá de Olivença chegaram novamente a Piratininga, eles vivem desde a costa marítima da Vila de Olivença até as Serras das Trempes e do Padeiro. Circundam a vila de Olivença desde que jesuítas, assim como em Piratininga, também por lá, em 1680, fundaram um aldeamento para catequese.

Re-existem com seu modo próprio e peculiar de vida, com seu sistema de abandonar áreas e casas renovando sempre o lugar onde moram, apesar de tantas décadas de constrangimento pela pressão fundiária local.

O Estado Brasileiro lhes negou até mesmo o reconhecimento como índios, a partir do fim do século 19, sendo somente depois da constituição de 1988 que houve abertura para suas reivindicações, assim como de tantos outros povos indígenas.

Foi somente em 2001 que os Tupinambá de Olivença foram oficialmente reconhecidos como indígenas pela FUNAI. A primeira fase de demarcação de seu território só foi concluída em 2009, com a identificação e delimitação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença.

Antes disto, ao longo das décadas de 30, 40 e 50 do século XX foram sendo cada vez mais empurrados para as serras e matas, com a intensificação da colonização e da privatização das terras. Na década de 60 e principalmente 70 do século XX sofreram intensamente com a sanha fundiária dos grandes produtores de cacau da região de Ilhéus, foram perdendo cada vez mais partes de seu território, sendo enclausurados em mínimas áreas onde mal podiam fazer seus roçados e suas taipas.

Re-existiram mantendo seus modos de vida tradicionais, suas comidas e bebidas tradicionais, mesmo nos piores momentos de confinamento territorial, mantiveram sua prática de abrir novas áreas de habitação e abandonar as anteriores, em um rito de negação absoluta da acumulação e do privado que domina a vida em todo o seu entorno, mantendo a ideia cara de revitalização da vida a partir do abandono cíclico de espaços e pertences, na qual a mata tem papel fundamental.

Em 2003, cada área de habitação Tupinambá tinha em média apenas (um por cento!) 1% do tamanho considerado como uma pequena propriedade fundiária, naquela região. Estas minúsculas áreas, trincheiras de sobrevivência, são chamadas de “lugares”, seguido do nome de um habitante; por exemplo, “o lugar de Miguel”.

Mas eles continuaram e continuam contando suas histórias, sonhando, dançando e cantando para adiar o fim, tanto lá como em Piratininga, como bem contou Ailton Krenak, no citado livro:

“Nosso tempo é especialista em criar ausências:  do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que canta, dança, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição da vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.”.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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