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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna Re-existir na diferença

Yanomami

Re-existindo na Diferença

Postado em 28 de Agosto de 2019 - Ricardo L. N. Moebus

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Neste mês de agosto, uma das publicações médicas mais prestigiadas e tradicionais do mundo, “The Lancet”, dedicou um editorial para manifestar a preocupação mundial com a saúde indígena no Brasil.

O editorial de 10 de agosto dete ano recebeu o título: “Bolsonaro ameaça a sobrevivência da população indígena do Brasil”.

O texto faz referência em especial à invasão das terras Yanomami por milhares de garimpeiros:

“Encorajados pela promessa do presidente de direita Jair Bolsonaro de abolir as reservas indígenas e abrir as terras à exploração comercial, madeireiros ilegais, garimpeiros e grileiros, muitas vezes fortemente armados, se infiltraram em territórios indígenas protegidos.

No norte do país, por exemplo, cerca de 20 mil garimpeiros ilegais entraram na reserva Yanomami, uma das maiores áreas indígenas do Brasil. A mineração polui os rios com mercúrio e sedimentos, erode as margens dos rios, limpa as árvores e cria grandes poças de água estagnada – um terreno fértil para os mosquitos.

Além disso, os infiltrados podem transmitir doenças às quais os povos indígenas têm pouca ou nenhuma imunidade.”

Os Yanomami lutam contra estas invasões de seu território há muitas décadas, mas seguramente este momento atual é a crise mais grave que enfrentam desde a constituição cidadã de 1988, que garantiu aos povos indígenas o direito ao uso exclusivo de suas terras, pior crise desde a demarcação da Terra Indígena (TI) Yanomami em 1992.

A luta pelo direito à existência, a luta de re-existência dos Yanomami se intensificou primeiro na década de setenta do século XX, com a construção da Rodovia Perimetral Norte, parte do projeto integracionista da ditadura militar ainda no governo Garrastazu Médici, que cortou o território indígena e facilitou drasticamente o acesso às terras Yanomami para garimpeiros, madeireiros, colonos, fazendeiros etc.

Desde então, os Yanomami viram suas terras invadidas por milhares de não índios saqueando as “riquezas naturais” de seu território tradicional.

Sobre esta época escreveu, da forma mais transparente, Darcy Ribeiro prefaciando o livro “Yanomami – Um Povo Ameaçado de Extinção”:

“Os Yanomami que, quando do primeiro choque com a civilização, somariam uns 20 mil, são a presença humana que o mundo viu e com ela se comoveu. Seu drama é que, com 500 anos de atraso, a civilização, afinal, chega a suas aldeias. Espanta-se de vê-los tão fortes, alegres e bem nutridos; de suas grandes casas-paravento, que não tem similar no mundo; de seu jeito próprio de enfeitar-se; da humanidade profunda que cintila em seus olhos; de sua criança lindíssima.

Civilização, para os Yanomami, significou três avalanches. A primeira, humana, encarnada pelos brutos que chegam invadindo suas casas, tomando suas mulheres, violentando suas crianças e querendo se fazerem entender não pelas palavras que diziam, incompreensíveis, mas pelos berros que gritavam e pelas armas tonitroantes com que matavam quem lhes parecesse hostil. Estes agentes da civilização, assentados em suas aldeias, comendo suas comidas, se puseram a percorrer os igarapés, rio acima e rio abaixo, incansáveis, procurando pepitas de ouro, que afinal encontraram.

Aí vem a segunda avalanche, química, do mercúrio que misturavam na areia e no barro para extrair o pó de ouro e que lançavam sobre as águas, matando os peixes, os jacarés, as taratarugas. Depois, o próprio rio, envenenado, e, por fim, os Yanomami que bebiam suas águas e nelas se banhavam.

A terceira avalanche, de natureza biótica, foram as enfermidades que o invasor trazia no corpo. Eles vinham de um universo euro-afro-asiático, que, através de milênios, foi peneirado pelas mais diversas pestes. As levam no corpo, na forma de vírus incrustados em suas carnes e ossos, prontos a explodir em doenças terríveis para os Yanomami, até então indenes, mas nem tanto para seus contagiadores.

Essas três avalanches se somam. Prossegue a guerra incruenta dos invasores. Avoluma-se a guerra química com o apodrecimento das águas. Intensifica-se a guerra biológica na forma de epidemias de gripe, de sarampo, de tuberculose, de caxumba de gonorréia e até de cáries dentárias, que os Yanomami não tinham antes. Sua população se reduz drasticamente. Em lugar da alegria de viver e da fartura que tiveram por milênios, pelo equilíbrio de sua forma de adaptação ecológica de povos da floresta, o que prevalece agora é uma gente esquálida, faminta, tossindo e coçando perebas.”

Durante a década de oitenta, vem o projeto “Calha Norte”, como estratégia militar para ocupar os “vazios da fronteira brasileira” ao norte da calha do rio Solimões.

Na época tanto a Igreja que desenvolvia trabalhos junto aos povos indígenas da região quanto inúmeras ONGs defensoras dos povos indígenas, condenam o projeto, apontando que, em Roraima, os Yanomami sofreriam üm ataque maciço e frontal, com graves consequências.

Esta proposta de “desenvolvimento regional” abre as portas para novas e maiores invasões dos territórios indígenas tradicionais. Mais de 40 mil garimpeiros invadiram as terras Yanomami em busca de ouro. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) estimou na época a presença de pelo menos 45 mil garimpeiros nas terras Yanomami.

O genocídio se repete, garimpeiros geralmente armados, atirando nos índios, destruindo aldeias, disseminando doenças para as quais a população indígena não possuía imunidade, causando a morte de aproximadamente 20 % da população Yanomami, com diversas epidemias, contaminação dos rios com mercúrio, desmatamento, ataques diretos às aldeias.

Nesta luta pela vida do povo Yanomami, o cacique e xamã Davi Kopenawa tornou-se um símbolo mundial da re-existência indígena, buscando apoio internacional para denunciar o genocídio Yanomami em curso desde o governo militar, em campanha pela demarcação da Terra Yanomami, como único modo de salvar seu povo.

A luta é desigual, o povo Yanomami, considerado então “última nação indígena das Américas que ainda vive em estado primitivo”, contra grandes e poderosos interesses econômicos, como deixa vislumbrar reportagem do “Jornal do Brasil” de julho de 1987:

“O potencial mineral conhecido da Amazônia brasileira está estimado em 100 bilhões de dólares. Deste total, de 30% a 40% estão em terras indígenas: de 30 bilhões a 40 bilhões de dólares, considerando apenas o que já é conhecido.

Estão nas terras indígenas as áreas minerais mais promissoras, fontes primárias de ouro e, provavelmente, fontes primárias de diamantes, até hoje não identificadas.”

Davi Kopenawa Yanomami passará muitas vezes por Brasília, em inúmeras manifestações em defesa do povo Yanomami. Terá audiência com o então presidente José Sarney, receberá o prêmio “global 500” atribuído pela ONU, passará pela França e Reino Unido, será recebido pelo secretário-geral das Nações Unidas em Nova York, em 1991, retornando novamente às Nações Unidas para participar da abertura do Ano Internacional dos Povos Indígenas, irá depois até a Noruega buscando apoio pela causa Yanomami. 

Mesmo depois de conquistada finalmente a demarcação do Território Indígena Yanomami em 1992, homologado pelo então presidente Fernando Collor, novas invasões continuaram a ocorrer.

Em 1993 acontece novo massacre, desta vez na aldeia Yanomami de Haximi-u, quando garimpeiros armados mataram, de uma só vez, mais de dez pessoas, incluindo uma criança de colo.

Reportagem do Jornal “O Globo” de agosto de 1993, descreve:

“Os peritos Paulo César Fortes e João Luiz Teixeira, vão recolher ossos como fêmur, clavícula, costelas e dentes humanos, dos quais apenas os dentes não tem perfuração à bala.”

Novamente Davi Kopenawa saiu em campanha nacional e internacional para sensibilizar a sociedade, para divulgar, denunciar a situação e pedir justiça, julgamento dos culpados e proteção para seu povo.

Alguns garimpeiros foram finalmente julgados e condenados por genocídio neste episódio, apenas dois seguem cumprindo pena.

Um documentário sobre a luta e peregrinação de Davi Kopenawa recebeu o sugestivo nome: “Davi contra Golias”.

Em seu livro “A Queda do Céu” ele conta:

“A primeira vez que falei da floresta longe de minha casa foi durante uma assembleia na cidade de Manaus. Mas não foi diante de brancos, e sim de outros índios! Era a época em que os garimpeiros estavam começando a invadir nossas terras, nos rios Apiaú e Uraricaá. Então, Ailton Krenak e Álvaro Tukano, lideranças da União das Nações Indígenas, me convidaram a falar. Disseram-me: ‘Você deve defender a floresta de seu povo conosco! Precisamos falar juntos contra os que querem se apossar de nossas terras! Senão, vamos acabar todos desaparecendo, como nossos antigos antes de nós!’”

Estamos agora em 2019, novamente um militar no comando do país, declarando abertamente guerra aos povos indígenas, incentivando, com seu discurso de supostamente colocar a nação em “Ordem” e “Progresso”, uma nova onda de invasões dos territórios indígenas e devastação das florestas.

Novamente o desastre humano e ambiental, estima-se que 20 mil garimpeiros já estejam agindo em território Yanomami. Novamente todo um povo vitimado pela violência e destruição.

A desmatamento da Amazônia bate recordes brutais em agosto de 2019. Fazendeiros, estimulados pelo discurso governante, inovam articulando uma ação orquestrada de ataque à floresta, chamada “Dia do Fogo”.

Os principais países financiadores do “Fundo Amazônia”, Noruega e Alemanha, já comunicaram a retirada de seu financiamento.

Agosto de 2019 poderá ficar para a nossa história como triste lembrança, de quando o céu começou a desabar sobre nossas cabeças; fazendo coro com as piores lembranças Yanomami, como algumas descritas no “A Queda do Céu”:

“Eu os tinha visto derrubar suas árvores e queimá-las para plantar capim. Eu conhecia o rastro de terras vazias e de doenças que deixam atrás de si. Apesar disso, sabia ainda pouca coisa a respeito deles. Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë! Multidões desses forasteiros brancos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru – ouro. Começaram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários. Então, meu peito voltou a se encher de raiva e angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos.”   

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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