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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Coluna Re-existir na diferença

Mulheres Indígenas

Re-existência Viva em Marcha

Postado em 14 de Agosto de 2019 - Ricardo L. N. Moebus

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Todos que viram aquelas muitas mulheres pisando sobre o solo, há tanto tempo tornado infértil, de Brasília, tiveram seus corações tocados.

Com seus colares, com seus cocares, com suas pulseiras, com suas variedades de pinturas corporais.

Pisando firme com seus ritmos compassados e com seus cantos, com suas crianças, tantas delas em seus criativos tecidos, redes, cintas para carregar os bebês em seus colos.

Todos que as viram, que as ouviram, se co-moveram com sua marcha.

Marcha das Mulheres Indígenas.

Marcha certamente não seria o nome exato para definir aquelas dezenas de grupos de mais de cem etnias, dentre as pouco mais de trezentas etnias sobreviventes ao genocídio brasilis.

Talvez fosse mais justo chamar aquele festival da diversidade humana, que evoluía quebrando a tradição das ruas monótonas de Brasília, chamar como a 1a Ciranda Geral das Mulheres Indígenas.

Mas Marcha ficou, para marcar todo o empenho e compromisso e intencionalidade ética-estética-politica destas mulheres.

Mulheres Indígenas em guerra pelos seus direitos, em defesa de seus Territórios, em defesa de seus povos, em defesa da VIDA em sua multiplicidade, verdadeira “biossociodiversidade”.

Mulheres Indígenas em defesa das florestas, do respeito aos seus modos de viver, em defesa do direito sagrado de continuar vivendo na presença viva de seus ancestrais.

Mulheres Índígenas, autênticas representantes vivas de todas aquelas que foram sequestradas, vitimadas, encarceradas, escravizadas, violentadas desde que esta guerra cruenta chamada Brasil começou, no ano da graça de 1500 da morte de “Nosso Salvador”.

Elas chegaram, vieram em mais de duas mil, saíram de todas as partes e regiões do Brasil, para dar o seu grito uníssono de “vida livre”.

Mulheres Indígenas que geraram em seus ventres, tantas vezes sob ameaça e constrangimento, a formação, a miscigenação do povo brasileiro, marcharam em Brasília em defesa das sementes criolas, da agricultura familiar e sem agrotóxicos, em defesa do direito à comida sem envenenamento, da terra sem veneno, dos seus rios limpos e livres do tormento das mineradoras.

O chão de Brasília tremeu sob os pés descalços destas mulheres guerreiras.

Os homens de preto em Brasília, tremeram dentro de seus ternos alinhados e bem passados pelas mãos de outras tantas mulheres, que deixaram ali em segredo suas mensagens ocultas em suor para ressoarem nesta marcha.

Os grandes Senhores do Veneno, os Senhores intocáveis do Latifúndio e do Agronegócio, os Senhores fabricantes de armas para matar, de químicas para envenenar, de mídias para enganar, os grandes Senhores por trás de milhares de garimpos ilegais e mineradoras imorais, os Senhores da Guerra contra a Vida, os Senhores da Necropolítica e seus exércitos de lacaios, tremeram, em Brasília ou bem longe dali, escondidos da miríade daqueles milhares de olhares penetrantes e corações valentes.

Eles tremeram, mesmo bem guardados e protegidos em seus castelos, em suas fortalezas, em seus Palácios com ou sem alvoradas, mesmo inacessíveis eles tremeram, nestes dias memoráveis de agosto, em que pisaram forte, socando ritmadamente o chão de Brasília, mais de quatro mil pés de Mulheres Indígenas.

O “adulto branco macho sempre no poder” se acovardou e se encolheu, mesmo invisivelmente, diante das mais de duas mil vozes de Mulheres Indígenas que ressoaram seus cantos de vida, suspendendo o céu cabisbaixo de Brasília, destoando dos traços bem comportados de Lúcio Costa.

Até a geometria apolínea arquitetada, forjada em aço e concreto para se tornar cidade, com suas tantas curvas inspiradas no feminino, tremeu na presença da força viva, da viva-cidade duas mil vezes mais curvilínea, daquelas mulheres indígenas.  

 Tudo isso se passou nos dias de 09 a 14 de agosto, com o belo tema “Território: Nosso corpo, Nosso Espírito”.

Toda aquela multiplicidade pôde costurar uma construção de um “comum”, com o tema do Território.

 Território compreendido com uma sofisticação conceitual que certamente faria Milton Santos saltar de alegria e bater palmas, orgulhoso de sua gente.

Território como espaço e tempo vivos, preenchidos de existência, comprometidos com os modos de viver e ser humanos.

Território Físico sim, demarcado e homologado, necessário para garantir direitos, mas Território também existencial, Território ancestral que presentifica o passado e garante a promessa de futuros possíveis.

Território Indígena ancestral.

Contraponto coletivo radical.

Contrariando a propriedade privada rural.

Território Corporal, denunciando a invasão de seus próprios corpos por políticas que querem desconstruir o respeito às especificidades étnicas, incluindo aí o respeito pelo alimento tradicional sem veneno, o respeito pela água livre de veneno e livre do lixo das mineradoras e garimpos, o respeito pela Saúde Indígena Diferenciada.

No dia 12 as Mulheres Indígenas ocuparam a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), sublinhando, ressaltando o tema da Saúde, como guardiães milenares do cuidado de seus filhos, do cuidado de seus povos.

Exigiram a saída da atual secretária responsável pela SESAI, Sílvia Waiãpi, por não representá-las. Conseguiram uma audiência com o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, que recebeu um pequeno comitê de dez mulheres.

Elas sabiam muito bem quem ele é, o que faz ali, porque e por quem exerce seu cargo, puderam encará-lo de frente, lhe dizer olhando nos olhos muitas de suas demandas e necessidades, sem qualquer ingenuidade, sem esperar nada daquele sujeito, mas cientes do valor simbólico e histórico da attitude delas e da importância de se fazerem presenças vivas ali, onde suas vozes nunca ecoaram.

Território também Espiritual, clamando pela demarcação de seus modos de ler e vivenciar o mundo, reivindicando o direito de sustentar a sacralidade da vida, a sacralidade de todo que vive, a sacralidade que exige o respeito por tudo que existe, no visível e no invisível.

Território Espiritual exigindo respeito pelas montanhas, gritando em nome dos Rios para os ouvidos surdos que não conseguem ouvir os gritos recorrentes das entidades que operam tudo que existe.

O grito dos peixes, o grito dos pássaros, o grito das fontes de água limpa, se fizeram ouvir na voz, nos cantos, na marcha daquelas Mulheres Indígenas.

No dia 13 marcharam até a Esplanada dos Ministérios, confluíram em um mar de vitalidade com o “Tsunami da Educação”.

No dia 14 celebraram o encontro da grande aliança pela vida em abundância, confluindo com a “Marcha das Margaridas”, que trazia a Brasília muitos milhares de mulheres camponesas, em uma vertiginosa demonstração da força em defesa da VIDA, força destas mulheres que cotidianamente engravidam a terra na produção de alimentos genuínos, saudáveis, para alimentar a imensa maioria dos brasileiros pela agricultura familiar.

Agricultura familiar cada dia mais esmagada pelo modelo agrominerador, corporativista exportador, agroexplorador e agroescravagista, de monoculturas de grãos transgênicos, para fabricação de carne.

Agricultura familiar que traz em seu seio o sentido genuíno de uma cultura marcada pelo respeito à terra, respeito às sementes tradicionais, respeito aos rios e convivência com as matas em agroflorestas extrativistas, uma verdadeira agri-cultura de respeito pela biodiversidade.

Ao longo de todos estes dias de marcha, as Mulheres Indígenas reafirmaram seu Território/Corpo/Espírito indissociável.

Trouxeram muitas de suas crianças, para lhes mostrarem, lhes ensinarem a força desta luta viva que atravessa os tempos, produzindo seus Territórios Espaço-Corpo-Temporais.

Vieram renovar no presente seu Território Temporal, seu modo de tempo circular, disputando as narrativas de nosso presente, as narrativas de nossos passados e antepassados, disputando e engravidando os nossos futuros de muitos e promissores possíveis.

Até a Lua, orgulhosa de suas cunhãs e cunhatãs, se fez cheia no dia 14 de agosto.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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