Semana On

Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Coluna Re-existir na diferença

Encruzilhadas

Proteção às vidas nas suas diferenças ou eliminação dos ditos ‘inúteis’

Postado em 27 de Março de 2019 - Emerson Merhy

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Conversando com um trabalhador que tinha votado no atual presidente e que me disse estar preocupado com o que estava acontecendo, pois acreditava que ele iria fazer a diferença. Inclusive disse isso quando foi entrevistado sobre expectativa em realização ao novo governo, logo em janeiro desse ano de 2019.

Quis saber com o que ele estava preocupado e me respondeu que com o fato de que o desemprego continuava aumentando, que a instabilidade social estava aumentando, que o governo parecia não saber direito o que fazer e que a proposta da chamada reforma da previdência seria um desastre para os trabalhadores, em geral.

Disse que ficou muito incomodado com a discriminação do trabalhador civil em relação ao militar, que acabou sendo privilegiado em uma proposta de reforma que lhe aumentava os ganhos e os direitos. Muito ao contrário do que o candidato tinha prometido fazer, se eleito.

Disse também que outra grande questão que lhe incomodava era onde iria e como iria viver essa multidão cada vez maior de desempregados, que estava se ampliando cada vez mais. Era só andar pelas ruas das cidades e ir vendo como ia crescendo o número de pessoas de diferentes idades - alguns ainda bem fisicamente - pelas calçadas, pedindo esmola e se arrumando para ficar por ali.

***

Essa característica apontada por ele não é uma situação exclusiva brasileira, mas aqui tem marcas próprias. Nem todo país tem um sistema previdenciário como o nosso, ou um Sistema Único de Saúde, ou uma rede de equipamentos públicos na educação tão ampla e variada. No ensino universitário as escolas públicas são a excelência e no ensino fundamental a rede pública está completamente em destruição.

Mas, mesmo assim, a quantidade de riqueza social que está instalada nesse processo não é desprezível e, paradoxalmente para um país com tanta desigualdade e pobreza, ter minimamente uma rede de proteção às vidas vulneráveis gera efeitos bem mais eficazes do que imaginamos.

Agrupamentos sociais dos mais variados tipos podendo usufruir dessas ofertas. Velhos pobres com alguma proteção e mesmo que seja uma aposentadoria mínima, parece que isso ainda lhes permitem sobreviver. Crianças de núcleos familiares sem muitos recursos materiais indo à escola. Grupos vulneráveis em termos de saúde podendo acessar vários tipos de cuidado.

Não que isso seja o melhor do melhor, mas ao contrário, no piso do piso que de fato é, ainda proporciona alguma rede de proteção para vidas minimamente sobreviventes.

Com isso, quando se pode apontar que agora está aumentando significativamente a situação de perdas de direitos e o aumento desenfreado da pobreza, algo naquela rede de proteção parece estar sendo destruído e por um caminho que poderá aprofundar esses efeitos negativos, mais ainda.

Alguma coisa vem indicando que vivemos e viveremos o aprofundamento de uma outra tensão: um esgarçamento daquela rede de proteção social com um crescimento da miserabilidade da maioria que depende dela.

Essa é a percepção que o trabalhador que apontou as questões iniciais colocadas nesse texto indicava. E como consequência imediatamente se perguntava: e agora, como esses milhões irão viver, que acontecerá com eles e elas.

***

Sem querer dar uma interpretação tão definitiva sobre esses acontecimentos, acho que cabe imaginar que alguém deve estar tirando proveito e vantagem dessa desconstrução, ou seja, da destruição daquela rede de proteção, e não deve ser pouca a vantagem.

Aqueles que acham que essa rede é um problema e não uma solução veem a necessidade de desmontá-la, indicando que no seu lugar cada um terá que, por si, criar suas formas de sobreviver, e quem não conseguir que pague com a vida por isso.

Esses que acham que a rede de proteção é um problema, apontam que o dinheiro que está sendo gasto na sua construção deve ficar livre para os setores do mercado poderem usá-lo e criar, segundo eles, desenvolvimento social.

Mas, o que seria isso, será que de fato é isso que acontecerá?

Pelo que temos visto em países que já fizeram esse movimento antes de nós, como o Chile, a maioria dos velhos não conseguem mais sobreviver com a situação miserável do valor de suas aposentadorias. E o Chile, hoje, é um lugar onde muitos se suicidam por isso. As vidas, em vez de serem protegidas pelo esforço social de todos, que um dia também estarão em situação semelhante, acabarão sendo financeirizadas, e quem tem poder para aproveitar disso são os grandes capitalistas. Isto é, quem captou a chamada economia com a destruição das redes de proteção social, lá no Chile,  foram os grandes bancos que passaram a gerir essa relação via mercado: quem pode pagar para se proteger, vive; quem não pode, que se vire.

Esse movimento transforma a noção de um bem público, a proteção das vidas, em um bem de mercado, protege-se quem tem dinheiro para isso.

Em países muito ricos, como os Estados Unidos da América do Norte, sabemos que a quantidade de desprotegidos é enorme, imagine por aqui onde temos um país com uma contingente de pobreza estrutural enorme.

Aqui, tudo indica, é a instalação de uma barbárie e que já começou.

Mesmo sabendo disso, há uma quantidade de gente, como o trabalhador já referido no começo do texto, que acredita que o governo atual tem razão em destruir a previdência, o sistema único de saúde e a rede de educação pública. E, o pior, gente que só está viva por causa dessa rede de proteção. É como negro defendendo a escravidão de negros pelos brancos.

E, temos que reconhecer, nesse trabalho de convencimento, os que de fato vão aproveitar bem dessa destruição das redes de proteção, como os bancos e os muito ricos, são bem competentes e contam com muitos recursos de comunicação para isso. Mandam na imprensa e mandam nas autoridades que decidem quem pode falar e se manifestar em relação a isso tudo.

***

Sobra, então, pensarmos sobre isso tudo e tentar responder: como irá viver a maioria que ficará desprotegida?

Para mim, a ideia de eliminação do outro que não julgo útil e necessário para os meus interesses, parece que não tem dado muito certo na história da humanidade.

Tudo indica que o pretendido efeito não se realiza e os “sobreviventes” voltam em onda como fantasmas a aterrorizar os seus algozes.

Dispositivos-marielles são impossíveis de serem exterminados. Dispositivos-miseráveis estão aí criando em si e para si novas redes de sobrevivências e talvez gerando uma nova gana por lutar por si, ao seu modo.

Novas multiplicidades de vidas estão nascendo e apontando para outras sociabilidades. Re-existir na diferença parece que será a sina do que vem por aí.

Mais cedo, ou mais tarde, a onda volta em pororoca.


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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