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Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Coluna Re-existir na diferença

Seriam os atuais governantes, fantoches?

Os governantes estão sentados em outros lugares, não onde achamos que estão

Postado em 30 de Janeiro de 2019 - Emerson Merhy

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Em um belo texto, Eugenio Aragão, escreveu na sua finalização

Não nos enganemos com as formas. O presidencialismo como o conhecíamos acabou. Para este funcionar, era imprescindível a figura de uma liderança respeitada e com carisma, um statesman ou uma stateswoman, tudo que o capitão Jair não é. Quem manda são outros, uma cadeia de comando tão opaca quanto dissimulada e, para eles, o bobo da corte não precisa entregar os pontos, mas apenas fazer o que sabe – criar alvoroço e gritaria na plateia, para o serviço que interessa ser feito sem ruído, atrás dos bastidores. Bolsonaro ficará por um bom tempo, se do outro lado do tabuleiro não houver estratégia e tática para vencer o jogo. Não esperemos que caia de podre, porque seu estado é que menos interessa a quem o colocou lá. Se souber incomodar, estará fazendo tudo certinho, podre ou maduro, tanto faz.

(Texto de Eugenio Aragão, ex-ministro da justiça, no site do 247 de 29 de janeiro de 2019: Porque a trapalhada de Bolsonaro será demorada)

Essa produção textual me levou para um pensamento que me ocupa já há algum tempo: a ideia de que os presidentes de governos republicanos não significam o que significavam.

Nos anos 90 li alguns ensaios de economistas que apontavam que o capitalismo transnacional tinha chegado a um ponto em que as ordens político-institucionais já não passavam tanto pelos recortes das Nações.

Por exemplo, organizações que não pertenciam a nenhuma nacionalidade específica atravessavam os territórios institucionais das Nações e impunham jogos novos no campo da política oficial do capitalismo. A velha figura do líder carismático a exercer comando no âmbito de um país estava chegando ao fim.

De imediato, fiquei procurando no Brasil alguém que se encaixasse nisso e caiu no meu colo a imagem do Fernando Henrique Cardoso, que sempre agiu como marionete, inclusive contra os seus próprios pensamentos.

Por um instante, achei que isso não se aplicava a Lula, engano meu. Apesar de alguma diferença importante entre ele e FHC, Lula também foi agindo e fazendo coisas que mostravam seus joelhos dobrados ao capital mundial.

A figura de Obama, então, me convenceu de modo definitivo.

O capitalismo tinha conseguido criar a figura do presidente fantoche, fake news. Trump está aí para comprovar isso tudo.

Os governantes, de fato, estão sentados em outros lugares, não onde achamos que estão.

São novas as maquinarias biopolíticas que governam os vivos e não passam pelos aparatos da maquinaria das sociedades republicanas, isso é fachada. Na realidade, esses aparatos são governados por adesão identitária das figuras políticas instituídas à lógica das grandes corporações mundiais. Fingem que governam para ficarem com algo que o capitalismo em migalhas lhes fornece, mas com um piscar de olhos podem ser eliminados se errarem nesse jogo. Tudo que é sólido, desmancha no ar.

Na Argentina e Brasil parece que vivemos exatamente esse mundo fake. Entretanto, os seus presidentes serem fakes - como são – é, de fato, o que essa nova ordem capitalista espera deles.

Por isso, não irão deixar o governo que aparentemente exercem, pois isso é o máximo de virtuosidade que se espera deles, não exercerem nenhum poder efetivo, a não ser poderes fugazes contra “inimigos” que possam ocupar os corações e mentes de “seus súditos”.

Como disse Aragão, vamos precisar saber disso para não cairmos em certas tentações de querer substituir um capitão por um general.

Porém, entendo que há uma limitação importante nesse pensamento do ex-ministro. Pensar em termos do que são categorias tradicionais da política e do social.

Por isso, precisamos entender esses deslocamentos dos lugares de exercício de poderes poderosos do e sobre o capital, que despotencializam a eficácia do exercício de poder de muitas forças sociais e políticas de uma Nação, que estamos muito acostumados, como as classes sociais, por exemplo.

Isso fica claro na fala de Hobsbawm sobre a perda de potência das forças sociais, quando na verdade está falando do que ele entende como arranjo social de grupos que podem fazer a política da transformação social. Marxista, como era, está sempre pensando na força das classes trabalhadoras e ao ver a globalização fica inquieto ao perceber que o cenário nacional perdeu lugar e potência política:

O enfraquecimento do Estado-nação causado pela globalização é um perigo para a democracia, porque é a organização dentro da qual a pressão popular pode operar; e a globalização reduz o alcance do que pode ser atingido por tal ação política"

(Eric Hobsbawm, historiador e pensador britânico, em 24/11/2007, Em entrevista ao GLOBO, quando indagado sobre os efeitos da globalização)

Esse historiador, não conseguia ver como do mesmo tamanho político ou até mais potente outros tipos de recortes de questões sociais com capacidade de mobilização, nas nações, muito mais efetivas do que várias lutas exclusivamente de classes.

Entendia a existência, e até valorava, a luta das mulheres, mas não compreendia sua força como elemento transformador. Assim, como as muitas lutas contra a violência de gênero, ou contra o preconceito racial, ou … qualquer luta que fossem transversalizadoras aos grupos sociais, que considerava estruturante da clássica conformação das sociedades capitalistas.

Nesse mundo atual, o que temos visto é o poder de mexida que tem tido várias rebeliões iniciadas por questões aparentemente banais, mas com grande capacidade mobilizadora. Isso tem acontecido mundo afora.

O potencial da luta contra a criminalização do aborto tem mostrado seu potencial transformador muito mais poderoso do que várias das revoluções classistas.

Isso deve estar em nossos pensamentos, quando o que desejamos é implantar uma sociedade efetivamente democrática para podermos minimamente desejar o impossível: vidas solidárias que se colocam como iguais nas suas diferenças. E isso cabe a nós em nossas lutas diárias ao nos juntarmos com qualquer outro para buscar um viver não neoliberal. Pois esse viver neoliberal produz morte e nós precisamos desejar mais vidas nas vidas já vividas, seja ela qualquer vida.

A mudança social não passa pela luta econômica, mas subjetiva.

Por isso, o poder conservador e revolucionário dos pentecostais. Há que tomá-los como algo a ter que se contrapor imaginariamente, desde sempre.

Quem não entender isso, ficará de fora do mundo porvir.


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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