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Terça-Feira 18.dez.2018

Ano VII - Nº 332

Governo

Coluna Re-existir na diferença

Da docência à saúde, o pensamento binário ameaça o futuro

Será a família a única rede de relações a formar moral e sexualmente os cidadãos?

Postado em 28 de Novembro de 2018 - Emerson Merhy

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No começo do século XX, no Brasil, havia uma corrente de pensamento na saúde pública que advogava a noção de que a família deveria ser a responsável principal pela formação das crianças, inclusive sobre as noções básicas sobre a saúde e o cuidado da mesma. Mas, essa construção se mostrou tão limitada que rapidamente criou-se a ideia que a escola deveria ter um papel também fundamental.

Hoje, mais do que antes, sabemos o quanto é limitada aquela visão, em especial por termos a noção de que todos que fazem parte real das relações de contato com a criança acabam produzindo influências sobre elas e, mais, sabemos que as suas referências simbólicas, como heróis, autoridades, esportistas famosos, professores e em especial amigos são chaves no modo como valorizam as experiências que vão tendo na vida.

Se um esportista muito importante para ela tem um comportamento muito agressivo ou promíscuo, isso acaba por gerar certas representações no mundo valorativo da criança, que cria a imagem de que aquele tipo de comportamento é que é bacana e deve ser seguido. Se um herói é machista e bruto ela acaba se convencendo que isso é o correto.

Se na experiência de vida da criança ela convive com cultos religiosos que vendem fé, como a maioria das igrejas fazem, acaba adotando como seu valor que a vida é de fato um grande comércio onde se dá bem quem for o mais espertalhão. E, assim, vai se formando o mundo moral daquele que logo adiante será um cidadão(ã), eleitor(a), a decidir sobre como devemos viver em conjunto.

De fato, diante de aprendizados já bem sabidos não é possível ser mais ingênuo em relação a isso e afirmar que a família é a exclusiva referência para a formação moral e sexual de qualquer cidadão.

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Mesmo tendo essa longa história já sido vivida pela sociedade brasileira, nesse momento estamos diante da construção daquela ideia limitada, para justificar novas adoções de paradigmas na produção de algumas políticas de governo absolutamente vitais, como a da saúde e da educação.

O atual indicado para ser o futuro ministro da saúde fez uma fala afirmando que não há porque insistir no atual programa de combate aos danos e a propagação do HIV (vírus responsável pela AIDS) pelo governo. Pois, como a família será o núcleo central na formação do caráter da criança, em termos da sua sexualidade, caberá aquela tornar essa criança invulnerável aos processos de contaminação, concluindo que sexo se aprende em casa.

Duvido que o próprio ministro teve uma história desse tipo, duvido que a sua educação heterossexual foi em casa, assim como duvido que todos(as) nós tivemos nossa formação sexual exclusivamente em casa, mesmo vindo de uma família conservadora como a minha.

As consequências da introdução desse paradigma para o desenho das ações de várias políticas serão desastrosas, porque deverá implicar não só em restringir o papel das escolas na formação das crianças, no sentido de abrir espaços para a conversa sobre o que é um grande tabu, como o tema da sexualidade ainda o é, mas porque também restringirá o aporte de recursos do próprio campo da saúde para dar suporte as práticas necessárias de cuidado, para quem já tem o dano em si, como indica o possível futuro ministro.

Aponta-se como uma forte possibilidade a suspensão do fornecimento de medicamentos para quem está sendo bem controlado por eles nas suas atuais fases do processo de desenvolvimento da AIDS. Isso fará o Brasil regredir, nesse item, dezenas de anos e levará a morte milhares de pessoas.

Esse paradigma, que o caráter da criança se forma no núcleo restrito familiar vem sendo defendido de forma aberta desde a disputa eleitoral, indicando que será um grande eixo para o ordenamento do campo das políticas sociais tão necessário para aplacar um pouco a forte desigualdade que existe no país.

A partir desse paradigma, de transferência de papéis de responsabilidade social, inclusive econômica, para o núcleo exclusivo da família, aponta-se a construção de um estado mínimo do ponto de vista social, apesar de máximo na garantia dos ganhos das corporações mundiais e brasileiras, acentuando a curto prazo um aumento significativo dos efeitos perversos da concentração da renda, impactada ainda mais pela eliminação das políticas de compensação.

Dessas ideias tem nascida a falsa noção do processo formativo sem partido, ou seja, que as escolas não poderão ensinar as crianças a pensar a partir dos vários pontos de vista, considerando que haverá um ponto de vista único a ser ensinado. E qualquer posição de abrir um debate sobre visões contraditórias poderá ser vista como um ativismo do(a) docente em sala de aula, o que abrirá a possibilidade da sua criminalização.

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E, aqui, chegamos talvez ao maior problema que se viverá na sociedade brasileira, que deixará de ser republicana e democrática na vida cotidiana. Quem tiver visão de mundo diferente do novo paradigma estará em risco, pois poderá ser criminalizado como ativista, sendo essa noção um olhar abrangente acusatório que identificará em qualquer debate e polêmica, que possa abrir para os que conversam novos processos reflexivos tão necessários para formar um pensamento complexo sobre o complexo mundo que vivemos, um risco e um perigo a ser contido, inclusive passível de interdição denunciatória e violenta. O debate político será mediado pela vigilância policial.

Esse efeito será perverso para quem tem atividade de cuidador e de docência, pois nesses campos do trabalho muitas vezes 1+1 não dá 2, exigindo que se tome o melhor caminho para aquela vida singular que está no processo de cuidado ou de aprendizagem.

A dinâmica do mundo do trabalho em saúde e do trabalho pedagógico é elástico, não se resume a um único modo de atuar enquadrada em mecanismos protocolados.

A sala de aula e a relação trabalhador de saúde com seu usuário continuará sendo um processo vivo em ato que não haverá vigilância total que a conterá, mesmo com a pretensão já declarada de tudo gravar e filmar.

A médio prazo esse caminho irá cair no descrédito, até para as dezenas de milhões que pensam de modo tão binário quanto o paradigma que vem sendo vendido para o próximo ciclo da vida no Brasil.


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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