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Ano VI - Nº 315

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Coluna Cine Drops

Todo o dinheiro do mundo

O filme que deletou Kevin Spacey

Postado em 09 de Fevereiro de 2018 - Danilo Custódio

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Está em cartaz no circuito comercial brasileiro uma das mais recentes super produções hollywoodianas encabeçada pela Sony Pictures. Todo dinheiro do mundo estreou por aqui na semana passada e segue em cartaz por mais essa semana em poucas salas, indicando que sua vida útil nas telonas tupiniquins está para acabar. Por se tratar de uma obra com direção do mestre faixa preta Ridley Scott, não há dúvidas que vale a pena ver no cinema. Está mais que provada sua capacidade em realizar espetáculos audiovisuais de encher os olhos e os ouvidos.

Mas nesse caso o que chama a atenção não é a obra cinematográfica em si, mas sim a maneira como os barões de hollywood administraram um problemão. Sua maior estrela, Kevin Spacey, caiu na desgraça após ganhar os holofotes do mundo ao ser acusado de abuso sexual por mais 13 homens. Na sequência, sua agência de relações públicas o demitiu, seu assessor pessoal pediu as contas e a Netflix decidiu eliminar seu personagem da bem-sucedida série House of Cards, além de cortar futuras relações contratuais com ele.

Mas a cereja do bolo veio com uma decisão impressionante, quando a Sony Pictures e Ridley Scott anunciaram que iriam excluir todas as cenas de Todo o Dinheiro do Mundo que foram gravadas com Kevin Spacey (na época das acusações eles já estavam em fase adiantada de produção). Essa decisão foi tomada um mês e meio antes da estreia do longa, quando o filme já estava nos seus últimos retoques e com todo o material promocional pronto (inclusive o trailer). Retornaram então para o set de filmagem e regravaram tudo com o ator Christopher Plummer, contratado às pressas para substituir Spacey.

Logo após esse anúncio, o tablóide Variety publicou uma coluna de opinião elogiando a ação, afirmando como isso seria positivo à imagem de seus responsáveis e também à imagem do filme frente ao Oscar (especulava-se que poderia ser a primeira estatueta a Ridley Scott, mas no final das contas ele acabou nem sendo indicado). Não há dúvidas que se trata de uma “crise de imagem” que pode custar milhões de dólares e ninguém em sã consciência quer correr o risco de perder esse dinheiro.

Engraçado é que esse mesmo filme – do qual Kevin Spacey foi deletado graças aos seus possíveis crimes de assédio sexual – será  protagonizado por Mark Wahlberg, que já fez declarações racistas e homofóbicas em situações diversas. Ele também já foi preso por jogar pedras em grupos de crianças afro-americanas em duas ocasiões, além de agredir violentamente diversas pessoas.

Já a Sony, produtora que deu o golpe de misericórdia em Spacey, fez campanha para distribuir o filme Manchester à Beira-Mar, protagonizado por Casey Affleck, que é acusado de assediar sexualmente a diretora de fotografia Magdalena Gorka e a produtora Amanda White. Uma delas disse que Casey entrou em sua cama enquanto ela dormia e a outra que o agressor tentou prendê-la em seu quarto de hotel de maneira violenta. Ambas afirmam que Affleck abusou verbalmente delas. Mas nesses casos, o assunto foi resolvido com um acordo extrajudicial e as acusações foram retiradas.

Isso significa que, se a mídia não desse tanta importância ao caso de Kevin Spacey, nem a Sony Pictures muito menos o Ridley Scott empregariam mais dinheiro e energia para deletá-lo com shift+del de Todo dinheiro do mundo. Afinal de contas, ninguém tá nem ai para as verdadeiras vítimas dessa história toda, uma vez que Hollywood é mundialmente conhecida pelo seu teste do sofá e pelas transgressões de muitas de suas estrelas.


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Colunista

Danilo Custódio

Danilo Custódio

Cinéfilo desde criancinha. Coordenador e professor na escola de artes visuais e cinema Espaço de Arte.


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