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Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna Cine Drops

Amor, sangue e baile de Carlos Saura

Trilogia Flamenca revelou o poder arrebatador dessa arte tão bela, misteriosa e exuberante

Postado em 23 de Março de 2021 - Clayton Sales

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De repente, um estrondo agudo como casco. Depois, trotes ritmados, controlados com leveza e vigor, como o voo delicado e voraz da águia sobre a presa ao chão. Os braços se movem, o corpo obedece o cadenciado bailado dos pés. Movimentos potentes desenham no ar um espetáculo de cores e sombras. Vestimentas soturnas esvoaçam, mas carregadas de força, dão brilho à cena. Violões são arpejados em dissonâncias misteriosas e cajons são percutidos ao sabor dos passos. Às vezes, uma voz lancinante invade o ambiente, tremulando as notas de uma canção dramática e agitando acordes como barco à deriva no mar de tempestade bravia. É uma cena de dança flamenca, com toda sua arte, resultado de fusões culturais e sentimentais. Bailarinos de calças negras e coletes, e bailarinas em coloridos vestidos entram em sintonia com a música de beleza trágica que serve de paisagem à interpretação corporal. A imagem nitidamente teatral, com seus monólogos, diálogos e vozerios, já serviu de locus orgânico para obras cinematográficas. O responsável por disseminar a dança flamenca para o mundo por meio de seus filmes é o cineasta espanhol Carlos Saura, que realizou uma série de longas-metragens que ficou conhecida como Trilogia Flamenca. O bailado imponente ganhava sua saga na sétima arte. 

Quando assistiu a uma apresentação de Antonio Gades no teatro, Carlos Saura já era um diretor consagrado. Disputou prêmios de peso do cinema como a Palma de Ouro do Festival de Cannes, Globo de Ouro e Oscar de melhor filme estrangeiro. Já o lendário bailarino espanhol produziu um espetáculo baseado numa peça de Frederico García Lorca escrita nos anos 1930. Saura, encantado com o trabalho, convidou Gades para um audacioso e inovador projeto cinematográfico a partir desse escrito e da forma como o dançarino o concebeu. Nele, a dança e a música eram o roteiro, o corpo e expressões eram o texto, e o tablado era a locação. Com arrojados enquadramentos que captavam a essência da liberdade artística e dramaticidade da dança flamenca, foi lançado o filme "Bodas de Sangue" (1981), o primeiro da trilogia de Saura. É a história de uma mulher prometida a um homem, que tenta fugir com seu antigo amor, mas ambos são perseguidos pelo noivo abandonado. Com Gades e Cristina Hoyos como protagonistas, e música de Emilio de Diego, o longa-metragem foi selecionado para a mostra não competitiva de Cannes. Estava iniciada a parceria entre o cinema de Carlos Saura e a dança de Antonio Gades. 

Três anos depois, o mais conhecido romance do escritor francês Prosper Merimée foi a inspiração para a nova empreitada da dupla Saura-Gades. O livro "Carmen", publicado em 1845, já havia servido de base para a clássica ópera de George Bizet alguns anos depois. Adaptações cinematográficas foram produzidas ao longo do século 20. Uma das aclamadas é "Carmen" (1983), que traz para as câmeras de Saura e a coregrafia de Gades a história de uma cigana que seduz um homem e o deixa completamete a seus pés. Depois, ela o despreza e o trai, e acaba assassinada por ele. O filme, também estrelado por Laura del Sol e com música de Paco de Lucía, concorreu ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e venceu o BAFTA na mesma categoria. Novamente, a fórmula de "Bodas de Sangue" era utilizada com êxito: cenários concentrados em espaços de dança, foco nos movimentos, dramaticidade expressiva e musicalidade abundante. Dança, música e teatro se uniam novamente nas lentes de Carlos Saura. 

Se uma peça teatral foi base para "Bodas de Sangue" e um romance literário foi inspiração para "Carmen", um balé composto por Manuel de Falla e lançado em 1915 foi a origem do último longa-metragem da Trilogia Flamenca de Carlos Saura. Embora haja diálogos, a obra mantém a essência dançante dos trabalhos anteriores, com muita teatralidade, drama, leveza, música e dança. "Amor Bruxo" (1986) narra a história de uma mulher que tenta exorcizar o fantasma do homem com quem foi forçadamente casada, que morreu apaixonado por outra pessoa. Para se livrar do espírito teimoso, ela deve dançar com essa entidade. No elenco, estão Antonio Gades, Cristina Hoyos e Laura del Sol, e a trilha sonora utilizada é a execução da partitura original do balé de De Falla. O filme foi exibido na mostra não competitiva do Festival de Cannes e venceu dois prêmios Goya, de fotografia e figurino. Era o desfecho pulsante da frutífera aliança entre o olhar de Carlos Saura e o talento de Antonio Gades. 

A Trilogia Flamenca ajudou a impulsionar a dança espanhola para o mundo. Em festivais e salas de cinema, esse pedaço marcante da cultura do país europeu ganhou novos admiradores. Falecido em 2004, Antonio Gades, creditado como co-roteirista dos três longas-metragens, era um defensor ardoroso das raízes da dança flamenca e crítico contundente da sua espetacularização. Esse espírito de devoção ao âmago profundo de uma expressão artística cativou Carlos Saura. Os filmes são audaciosos em apostar na relação dança-música como eixos das suas narrativas. Teatro filmado, bailes cinematográficos, musicais dançantes, dramas coreografados, nomes podem ser muitos. O fato é que a Trilogia Flamenca se valeu da sabedoria e prestígio mundial de Carlos Saura, e da projeção global do cinema, para revelar o poder arrebatador dessa arte tão bela, misteriosa e exuberante.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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