Semana On

Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna Cine Drops

Grandes margaridas na sétima arte

O incansável espírito feminino de luta

Postado em 03 de Março de 2021 - Clayton Sales

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Homens eram enviados aos montes para lutar na Primeira Guerra Mundial. Vários países europeus entraram no conflito que entraria para a história como um dos mais mortais, inaugurando uma era de trevas no até então delicado equilíbrio do século 20. A Rússia czarista foi uma dessas nações. Homens foram para o campo de batalha em uma época de grave crise financeira. A inflação vicejava, o desemprego prosperava e a agonia do povo crescia. Agonia e revolta em ebulição. Como grande parte dos homens estava na guerra, coube às suas esposas o papel de canalizar a indignação coletiva, liderar as massas e organizar a resistência diante daquela realidade. Então, as trabalhadoras das fábricas foram para as ruas e realizaram um eloquente protesto, que deu início à gigantesca pressão popular contra o czarismo. Essa manifestação tinha como pautas não apenas a crise, mas também o repúdio à participação na guerra e demandas por equidade salarial, e culminou mais tarde no que a História registra como a Revolução Bolchevique. A data era 23 de fevereiro de 1917, pelo calendário juliano adotado na Rússia da época, equivalente a 8 de março de 1917. Cerca de 90 mil mulheres ocuparam as vias públicas para desencadear eventos que transformariam o mundo. Em 1921, o 8 de março passou a ser considerado o Dia Internacional da Mulher, graças a esse e outros acontecimentos, como o criminoso incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York (EUA), onde morreram centenas trabalhadoras e dezenas de homens em greve, ocorrido em 25 de março de 1911. Apenas na década de 1970, a ONU oficializou a data comemorativa de 8 de março, celebrada até hoje como momento de reflexão sobre a condição feminina na sociedade e as lutas das mulheres por direitos. O Dia Internacional da Mulher ingressava no calendário global.

Desde seus primórdios, o cinema realiza produções com temáticas feministas. Um exemplo é "A Sorridente Madame Beudet" (1923) de Germaine Dulac, pioneira do cinema francês. O longa-metragem conta a história de uma esposa que vive um casamento sem amor com um homem rico e que gosta de exibir seu poder, até o ponto em que ela resolve tomar uma atitude drástica para se libertar dessa relação opressiva. O filme é considerado um dos primeiros a abordar a contestação das mulheres ao sistema social, moral e comportamental. É uma referência para os movimentos feministas, elaborado por uma cineasta engajada nessa causa. Décadas depois, na antiga Tchecoslováquia, a cineasta Vera Chytilová realizou "As Pequenas Margaridas" (1966), sobre duas irmãs adolescentes chamadas Marie, que percebem o quanto a sociedade em que vivem é conservadora. Então, elas a transgridem, aprontando travessuras que parecem apenas arroubos juvenis, mas revelam um espírito libertador que não se admitia naquele mundo fechado. Ele mostra que o desafio a costumes e regras impostas pelas classes dominantes e consolidadas pela sua naturalização como verdades absolutas também pode ter um sentido transformador. Para isso, a narrativa utiliza elementos surrealistas e sarcasmo ao passar sua mensagem de insubmissão. É no interior das estruturas familiares e sociais que, muitas vezes, os questionamentos e desafios devem ser travados. 

No entanto, a luta política das mulheres também foi abordada pelo cinema. Desde a criação do voto para a escolha de representantes públicos, esse sistema, embora um avanço, foi alvo de restrições. A muitas categorias de pessoas era vetado o direito de participar de eleições e as mulheres eram uma delas. Seu papel se resumia a aceitar as decisões políticas de homens e servir passivamente a eles. Porém, com tempo, crescia o desejo e a necessidade de participação nos processos eleitorais. Movimentos de mulheres ganhavam adeptas, sob escárnio, rejeição e violência de homens que discordavam dessa igualdade. Nada que impedisse a marcha da História. Nasciam vários movimentos sufragistas pela Europa e depois pelo mundo democrático. Um filme que trata desse fenômeno social e político é "As Sufragistas" (2015) de Sarah Gavron, que narra a história de três mulheres britânicas que, em princípio, eram indiferentes donas de casa, mas com o tempo se incorporaram às manifestações pelo direito ao voto na Inglaterra do início do século 20. Pelo olhar de uma cineasta, o cinema revisita o passado para compreender o eclodir de uma árdua e grande conquista.  

As batalhas travadas por mulheres ao longo dos séculos possuem várias frentes. São obstáculos plantados há tempos que se transformaram em uma cultura profundamente enraizada e até hoje determina padrões em diversos aspectos. Um desses espaços onde a herança patriarcal está presente é o mercado de trabalho. Apesar das atuais leis coibindo esse crime, o assédio sexual ainda atormenta trabalhadoras pelo mundo. Uma produção que retrata a muitas vezes solitária peleja contra o assédio é "Terra Fria" (2005) da cineasta Niki Caro. A trama gira em torno de uma das primeiras operárias em minas de ferro de Minesotta (EUA). Mãe solo, ela precisava do emprego, mas os colegas rejeitavam a ideia de trabalhar com mulheres e passaram a assediá-la sexual e moralmente. Ela não hesitou e, contrariando as recomendações de sua família, abriu um processo judicial contra a empresa. Com a pressão, a mineradora foi obrigada a criar políticas contra o assédio sexual e indenizar as trabalhadoras. Mais um quadrante da luta por direitos mostrado pelas lentes de uma realizadora. 

Outra chaga que assola a vida das mulheres é a cultura do estupro. Por meio dela, homens se consideram proprietários e usuários de corpos femininos a seu gosto. Basta elas fornecerem o que acreditam ser um "sinal", como roupas ou atitudes, para recorrerem à força física ou outros ardis e consumarem o ato sexual sem consentimento. Denúncias de estupro não raramente esbarram na argumentação de que os criminosos foram "provocados" pelas vítimas. Recentemente, até um infame "estupro culposo" foi sugerido por agentes da lei para inocentar um acusado, mostrando que a cultura do estupro respira em tribunais. Um filme que desenvolve esaa temática é "Acusados" (1988) de Jonathan Kaplan, sobre uma mulher violentada por três homens em um bar após dançar embriagada na frente deles. A defesa centrou sua estratégia na desqualificação moral da vítima, mas a promotora foi implacável e conseguiu a condenação dos réus. A mensagem é simples: não importa em que momento, não importa a reputação da mulher. Não é não e ponto final. E o cinema exibiu essa verdade com toda eficiência. 

A sétima arte também contemplou as biografias de grandes figuras femininas. Especialmente nas artes, onde as representações do imaginário, emoções e posicionamentos ganham formas de expressão criativas. Cinebiografias de artistas notáveis costumam ser bem recepcionadas, como "Frida" (2002) de Julie Taymor. Baseado no livro escrito por Hayden Herrera, o filme conta a jornada da pintora mexicana Frida Kahlo, sua paixão pela arte e seu espírito livre, além das agruras enfrentadas para viver e criar do modo que desejava. Outro longa-metragem nessa linha é "What Happened, Miss Simone?" (2015) de Liz Garbus, documentário sobre a vida e a carreira da cantora americana Nina Simone. Além de personagem fundamental da música, ela lutou pelos direitos civis à população negra nos EUA e pelas mulheres. Mais uma produção sobre personalidades femininas é "Violette" (2013) de Martin Provost, sobre um encontro entre a escritora francesa Violette Leduc e a filósofa Simone de Beauvoir. Uma amizade intensa é construída com Simone encorajando Violette a colocar no papel seus questionamentos e anseios de mulher. Por meio de bons trabalhos, o cinema apresenta ao mundo formidáveis mulheres. 

O cinema brasileiro possue algumas obras que tangenciam as inquietações femininas. Personagens fortes protagonizam obras como "Que Horas Ela Volta?" (2015) de Anna Muylaert, que mostra as relações entre três mulheres: a patroa de classe média alta e bem sucedida, a doméstica leal e resignada, e a filha da empregada recém-chegada para o vestibular, que abre os olhos da mãe para sua condição. Há também as super-heroínas de blockbusters como "Mulher-Maravilha" (2017) e "Capitã Marvel" (2019), popularizando narrativas em que princesas indefesas são substituídas por mulheres poderosas. Sob diversas abordagens, o cinema sempre buscou em demandas, personagens e contextos sobre a condição da mulher na sociedade inspirações para várias obras. Sob câmeras e roteiros de cineastas mulheres e homens, a capacidade de desafiar códigos erguidos pelo patriarcado, no fundo, apavorado em dividir seu privilégio decisório, serviu de fonte para miríades de produções. Portanto, o cinema pode ser um modo de conhecer e compreender um pouco da energia que moveu as operárias russas em 1917 ou as sufragistas europeias: o incansável espírito feminino de luta.


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Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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