Semana On

Terça-Feira 09.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Coluna Cine Drops

O rádio nas ondas do cinema

Na era da internet, os legados do rádio e do cinema demonstram sua presença

Postado em 17 de Fevereiro de 2021 - Clayton Sales

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Com sucatas e esquema desenhado em papel, o técnico Zequiel constrói um sonho. Na verdade, ele ajuda o estudante Jorge a projetar sua voz a todo o morro onde moram. A voz planando sem amarras aos lares modestos dos moradores. A voz aterrissando em cada aparelho que acompanha o dia a dia do povo. A voz disparando palavras em vez de balas, na triste rotina de violência na comunidade. No seu amadorismo, a experiência era subversiva, até inconsequente. Entrar no ar durante a Voz do Brasil, proclamando-se a "verdadeira voz do Brasil", era atrevimento demais. Audácia que não escapou dos radares das autoridades, sempre rastreando movimentos das quebradas. Mas como enfrentar um sistema que subtrai oportunidades de pessoas, especialmente jovens, que habitam as periferias sem esse tipo de ousadia? Em vez de pistolas, a arma dos meninos era o rádio. Uma estação precária, construída com peças baratas e usadas, financiada por vaquinhas entre a população, mas que chegava aos dials com suas ideias. Um dos amigos da dupla era Brau, artista que desejava suas músicas circulando em seu lugar de origem. Ele enxergava naquela emissora a chance de ele e os talentos vizinhos serem ouvidos. Os participantes desse projeto de feições humildes e ambições gloriosas são personagens do filme "Uma Onda no Ar" (2002) de Helvécio Ratton, baseado na história real da Rádio Favela de Belo Horizonte (MG), que começou numa transgressora ilegalidade até se tornar uma estação educativa. É uma jornada de sonhos potencializados pelo fascinante veículo de comunicação, exibida de forma encantadora pela sétima arte. O cinema se entrega à magia do rádio. 

Produtos arquitetados no final do século 19, cinema e rádio caminharam paralelamente ao longo do tempo com alguns proveitosos encontros. Quando o rádio se popularizou a partir dos anos 1920, o cinema arregimentava sua força e também conquistava prestígio. Tanto que nos anos dourados do rádio - décadas de 1930 e 1940- o cinema vivia seus dias luminosos, especialmente nos EUA. Muitos atores e atrizes começaram suas carreiras no radioteatro, fonte para realizadores de filmes prospectarem elencos. Um dos nomes mais importantes do cinema foi Orson Welles, responsável por obras como "Cidadão Kane", que antes trabalhou na rádio CBS e criou a série radiofônica "The Mercury Theatre On The Air" (1938). Distribuído em episódios transmitidos ao vivo semanalmente, o programa dramatizava clássicos da literatura, transformando-os em peças sonoras. O mais conhecido é "A Guerra dos Mundos" de H.G. Wells, encenação que causou pânico com sua trama sobre a invasão de máquinas marcianas assassinas na Terra. Apesar da confusão que causou, pode ser considerada uma das mais bem sucedidas adaptações literárias e um parâmetro para o modo como cinema desenvolveria suas versões de livros. O longa-metragem "Brave New Jersey" (2016) de Jody Lambert é baseado nesse acontecimento. O cinema busca entender o poder do rádio. 

Poder capaz de despertar virtudes e evocar vícios. Dependendo da maneira como é usado, o rádio é uma estrada para a barbárie, violência e ódio. Sua força em estimular o imaginário e o desejo de ação sempre foram características magníficas dessa mídia. Em mãos malignas, porém, é um instrumento nocivo. O nazismo cresceu em grande parte com o sistemático manuseio da propaganda radiofônica a serviço da tirania genocida de Hitler. O apoio popular a sua ideologia foi conquistado com decisivo auxílio do rádio. Em outras ocasiões, o veículo faz emergir reações diversas, nem sempre positivas. Uma situação é sugerida em "Verdades que Matam" (1988) de Oliver Stone. Ele conta a história de um locutor muito popular graças a seus programas perigosamente provocativos. Eram sua glória e sua sentença de morte. Porém, quando esse meio de comunicação formidável é direcionado à alegria em tempos e lugares mergulhados na angústia, o resultado conforta. Em "Bom Dia, Vietnã" (1987), um radialista famoso é enviado para trabalhar numa estação montada em um campo de batalha durante a Guerra do Vietnã. Sua função é entreter as tropas com música e diversão. E diversão combina perfeitamente com rádio, como atesta a comédia portuguesa "A Menina da Rádio" (1944) de Arthur Duarte, sobre um lojista apaixonado pelo progresso e novas tecnologias. Ele resolve construir uma emissora no bairro onde seu pequeno negócio está estabelecido e escala sua filha como estrela principal dessa rádio comunitária. O cinema aborda a complexidade do poder sonoro. 

O trabalho de radialistas costuma ser quase solitário. No ambiente introspectivo do estúdio, apenas locutor, mobílias e equipamentos. No máximo, um operador de áudio faz companhia a quem irradia sua voz. O clima se torna ainda mais soturno quando os programas são noturnos. Solidão amplificada, atmosfera obscura e cenário fabuloso para produções de gêneros como suspense e ficção científica. A cabine de rádio foi uma das locações de "A Vastidão da Noite" (2019) de Andrew Patterson. O longa-metragem conta a história de um DJ de emissora interiorana, que ouve um estranho ruído interferindo na transmissão de seu programa. Mais tarde, descobre a procedência: uma nave extra-terrestre. Já quando a essa escuridão é adicionada a treva psicológica de mentes perturbadas, o sabor é apavorante. Um exemplo é o sul-coreano "Shim-yaui FM" (2010) de Kim Sang-man, sobre uma locutora em seu último dia de trabalho. Ela apresenta um popular programa de trilhas sonoras de filmes, mas um fã obcecado faz coisas terríveis para a apresentadora continuar no emprego. É o cinema explorando as áreas de sombra do rádio.

Rádio e cinema são frutos de avanços tecnológicos em prol do desejo humano de ampliar o alcance de suas expressões. Cada um trilhou caminhos próprios, com eventuais contribuições mútuas. Ambos representam a consolidação da comunicação de massa que tanto influenciou o mundo no século 20. Hoje, na era da internet, os legados do rádio e do cinema demonstram sua presença. Enquanto a sétima arte incorpora as plataformas digitais de filmes a seu modo de produção, a genética do rádio é fundamental para podcasts narrativos e audiolivros, além de um revigorante retorno de radioteatros e radionovelas. Contar histórias é uma arte duradoura e adaptativa. Onde houver chance, som e imagem serão caminhos repletos de recursos e possibilidades. E assim, o cinema entregará novas histórias de homens e mulheres em suas jornadas pelo universo sonoro, imaginativo e poderoso do rádio ou seja lá no que ele se transformar no futuro.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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