Semana On

Terça-Feira 27.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna Cine Drops

Rebobinando a nostalgia com ‘Cinemagia’

Saudosas lembranças do vídeocassete

Postado em 16 de Setembro de 2020 - Clayton Sales

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Ritual sagrado: as tardes ou noites de sexta-feira eram dedicadas a expedições em labirintos mágicos. Depois do cumprimento ao atendente, o momento de submergir na selva de prateleiras povoadas de caixas de fitas VHS chegava. Eu demorava longos minutos e até horas lendo sinopses de filmes impressas nas capas. Mal percebia o tempo fluir. Às vezes, encontrava algum conhecido que participava do mesmo ritual e o relógio avançava ainda mais graças aos papos sobre obras cinematográficas disponíveis naqueles altares. Como eram épocas mais jovens, tinha a habitual visita ao dark side of the moon do lugar: o departamento oculto dos "pornozinhos". Havia também a colorida sessão infantil com suas gôndolas na altura dos pequenos cinéfilos, que explodiam em risos cada vez que uma capa chamava sua atenção. Carregando uma pilha de cinco a dez caixas de VHS - e mais tarde de DVDs -, era o momento de levá-la ao balcão para o atendente apanhar as fitas, colocá-las dentro das caixas, guardar tudo numa sacola plástica branca com a logomarca do estabelecimento e me dar o papelzinho com a relação de títulos, valores e prazos para o retorno. Fitas rebobinadas, é claro. 

O videocassete apareceu em casa quando eu já morava em Campo Grande (MS). O aparelho precisava ser alimentado e as fontes eram as videolocadoras. Havia a badalada Helio's Vídeo, a alternativa DuCarmo, a cultuada MB Vídeo e uma vizinha cujo nome me escapa, mas que quebrava o galho quando a preguiça de ir ao centro da cidade me possuía. Locar filmes, ser premiado com multa por atrasar devolução ou esquecer de voltar as fitas ao início, comentar produções com funcionários, conhecer pessoas entre as gôndolas. Instantes em que a vida entrava em câmera lenta. É provável que mais da metade do que conheço sobre cinema seja resultado de quase duas décadas na rotina semanal em videolocadoras. Mesmo com a entrada dos DVDs, a procura pelas fitas ainda durou, porém, seu reinado aos poucos se encerrava. As últimas locadoras ainda lutavam contra os primeiros impactos da onda digital, inicialmente, enfrentando a nova forma de um velho adversário chamado pirataria. Depois, vendo a lealdade de seus usuários migrar para a TV fechada, o Youtube, os serviços on demand e de streaming. Gradativamente, os imóveis que abrigavam estantes repletas de fitas e DVDs, onde o costume de procurar filmes se assemelhava a um ritual, ganhavam melancólicas placas de "vende-se" ou "aluga-se" penduradas em suas portas trancadas. Parte de seus acervos foram despachados a preços que, dependendo da obra, soavam heréticos. Tão heréticos que aproveitei, como o "Cidadão Kane" a dez reais e o "Talk Radio" a cinco reais. Era o epílogo de saborosos dias. Agora, são saudosas lembranças.

Lembranças despertadas graças ao documentário "Cinemagia - A História das Videolocadoras de São Paulo" (2017) de Alan Oliveira. Embora o contexto seja a capital paulista, é impossível desconectar suas imagens e depoimentos da memória afetiva onde quer que estejamos. Relatando desde o estranhamento inicial dos consumidores de filmes com a possibilidade de pegar fitas emprestadas até o declínio das locadoras, o longa-metragem apresenta relatos de proprietários, trabalhadores e usuários desses espaços. O aluguel de vídeos se tornou um negócio lucrativo, entretanto, a obra evidencia o quanto a atividade transcendia a rentabilidade comercial. Trocas culturais, interações entre apreciadores da sétima arte e alternativa para famílias e solitários faziam dos donos de videolocadoras personagens integrados a sua clientela. "Cinemagia - A História das Videolocadoras de São Paulo" também descreve com dinamismo e leveza os variados métodos de funcionamento desses locais, a catalogação dos acervos e a criatividade para atrair potenciais associados, além de emocionantes e divertidas histórias extraídas do dia a dia de quem frequentava, labutava ou comandava as locadoras paulistanas. O documentário também discute a consolidação das plataformas de streaming, o que sacramentou o fim das locadoras como segmento próspero de mercado. Curiosamente, assisti ao filme em uma delas.

Etiquetas verdes, prateadas e vermelhas, indicando a condição de lançamentos ou promoções. Ofertas do tipo "leve cinco, pague quatro" fitas ou DVDs. A sessão "mocozada" dos filmes de sacanagem das mais diversificadas espécies, geralmente nos fundos da locadora, após uma insuspeita porta. O ponto de encontro de vizinhos, além de praças, padarias, quitandas, igrejas e botecos. Os papos sobre cinema com antenados balconistas. As montanhas de vídeos ao lado da TV e do aparelho para um fim de semana caseiro. Alugar os filminhos para noites de sexta, sábado e domingo. E devolvê-los na segunda ou renovar a locação. Pagar uma taxa extra pelo atraso. Quem vivenciou isso, vai se deliciar com "Cinemagia - A História das Videolocadoras de São Paulo". Quem pertence a gerações mais recentes, tem a chance de conhecer os primórdios do confortável ato de consumir cinema em casa. O cenário é São Paulo, mas a qualidade de um documentário pode ser medida pela sua universalidade, o poder de transformar o ponto singular em chave para desencadear identificações que ultrapassam o locus delimitado. Por isso, o filme mostra que, para quem não reside na capital paulista, a geografia é apenas um detalhe. A videolocadora era nossa cidade. Uma vila onde a praticidade cibernética do presente jamais substituirá a humanidade desbravadora de passear serenamente pelas estantes cheias de sonhos, desejos e paixões. "Cinemagia - A História das Videolocadoras de São Paulo" é a nostalgia rebobinada.

Serviço

"Cinemagia - A História das Videolocadoras de São Paulo" está disponível na plataforma Amazon Prime.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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