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Terça-Feira 20.out.2020

Ano IX - Nº 415

Coluna Cine Drops

Amor, mulher e voz em ‘Ela’

A voz é espectro de uma ideia superlativa de liberdade. A voz é o amor que ganha o infinito

Postado em 02 de Setembro de 2020 - Clayton Sales

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Deitados na cama, no acalanto da madrugada, Theodore e Samantha tem uma noite tórrida. A transa inesperada começa com risadas cúmplices, sussurros carinhosos, arfares agudos e palavras obscenas. Como as palavras são importantes para esses amantes. Palavras-sexos. A voz, os fonemas e onomatopeias são zonas erógenas clamando por uma expedição profunda. Gemidos ruidosos são irradiados em sincronismo, mantidos até o gozo explosivo, finalizando o curso dessa harmonia entre dois seres que se amam. A cena quente é basicamente uma tela escura, com algumas panorâmicas pelas estrelas do céu e luzes acesas nos prédios da cidade. O breu cobre a fotografia com uma camada sedutora de aditivo para a imaginação. Por isso, os minutos na escuridão dessa obra tão colorida são uma bela experiência cinematográfica e sensorial. Sem o visual dos corpos. Apenas vozes.

Escrito e dirigido por Spike Jonze, "Ela" (2013) desperta reflexões sobre o amor e o que alimenta os relacionamentos. É preciso organismo, substância tangível e avistável para o desenvolvimento de apegos românticos por outra pessoa? No cenário futurista, mas não tão discrepante dos dias atuais, repletos de aplicativos inteligentes causando abandonos conectados, o contraste com a vida de Theodore (Joaquin Phoenix), que ganha vida escrevendo cartas emocionantes, torna o filme atraente para digressões sobre a estrutura dos afetos e a solidão no vigente viver digital. Samantha é uma personagem cativante, ainda mais por não se tratar de uma mulher, mas de um sofisticado sistema de Inteligência Artificial, capaz de aprender faculdades humanas como amizade, tesão e paixão com espantosa rapidez e perfeição. O filme acende a questão: o que amamos quando amamos? Matéria, essência, ideia, desejo, projeção? "Ela" é um drama com cobertura de ficção científica que tem sabor de curiosidade investigativa sobre o universo oculto do amor.

Enquanto o programa de I.A. estava guardado na caixa, pronto para ser instalado por algum comprador, Theodore projetava nas suas cartas tocantes a potência de seu coração. Na vida fora da tela de seu computador de trabalho, porém, o escrevedor se arrastava cabisbaixo por labirintos de arranha-céus até seu apartamento, recusando-se a assinar o divórcio doloroso que insistia em atordoá-lo e mergulhando nas memórias felizes de sua ex-esposa com renitente desespero. As coisas mudaram quando ele adquiriu o software, instalou em todos os seus dispositivos digitais e escolheu a opção de voz feminina, que se autodenominou Samantha. De início, a estranheza em conversar com uma máquina. Depois, a aceitação prática, já que ela organizava seus e-mails, cartas de serviço e mensagens, e até opinava sobre elas. A serviçal ideal. Mais tarde, a afeição crescente, fruto do desenvolvimento de uma espécie de "personalidade", através de aprendizados cibernéticos, que encantou Theodore. Samantha tornava-se mulher.

A mágoa conjugal do solitário escrevedor canalizou sua paixão para organismo informático que se configurava e que se expressava por meio de uma rouca e delicada voz. A voz de Scarlett Johansson, em uma interpretação com calculadas imperfeições, dando a Samantha seu apaixonante caráter humanizado (seria inovador se a estrela ganhasse o Critics Choices de atriz coadjuvante ao qual foi indicada, premiando assim uma perfomance falada, já que Scarlett não aparece no filme). Após assumirem a relação, Theodore vive sua lua-de-mel com Samantha, sem temer qualquer ridículo em trocar afagos públicos com um dispositivo móvel. Parecia o tipo de coisa comum naquele futuro. Na sociedade de "Ela", o organismo físico perdia espaço para o virtual. O corpo era irrelevante. 

Então, vieram as crises. Samantha desenvolveu o desejo de ter um corpo para usufruir da mesma sensação palpável que Theodore e lhe devolver a materialidade de uma transa. Então, ela encontrou uma garota, instruiu-a colocar um fone de ouvido e uma câmera em seu rosto, e pediu-lhe para fazer amor com Theodore. Incomodado, ele recusou. Sua cabeça era tradicional demais para um ménage à trois, sobretudo naquelas circunstâncias. Samantha estava virando uma mulher de espírito livre, no momento em que se descobre que a ternura de Theodore escondia o homem sufocante, motivo para sua ex-esposa querer a separação. O amor de Theodore era um território provinciano com fronteiras demarcadas pelo sonho tóxico da parceira sempre à disposição de suas carências. Assim, nem Inteligência Artificial aguenta. Depois de um tempo, Samantha anuncia que estava indo embora, pois descobrira novos horizontes. Constatava que o corpo era um limite que atrapalharia seus planos de liberdade. Desvelava-se uma mulher capaz de amar intensamente Theodore, ao mesmo tempo que amava centenas de outras pessoas com a mesma entrega, para a desolação do monogâmico escrevedor. Samantha aprendeu a humanidade, colocou-a sob controle de seu organismo digital e se transformou em uma criatura renovada e pronta para os mistérios e possibilidades da virtualidade. Samantha estava toda plena. 

Aclamado pela crítica, o filme "Ela" transforma as tecnologias da comunicação, para muitos, a maldição que está minando a perenidade dos vínculos, em poder reaproximador e, quem sabe, refundador de laços afetivos. Talvez, as máquinas do século 21 tenham adquirido a função surpreendente de revelar facetas obscuras dessa humanidade tão absorta na sua própria desfiguração. Além disso, na obra de Spike Jonze, há o interessante resgate do poder ancestral da oralidade, em que a fala e seus meandros invisíveis e imaginativos ganham transcendência. Em "Ela", a voz de Samantha é seu espírito e ele se basta. A voz é corpo, mente, alma e coração de uma magnífica mulher. A voz é espectro de uma ideia superlativa de liberdade. A voz é o amor que ganha o infinito.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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