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Domingo 12.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna Cine Drops

Androides sonham com a humanidade em ‘Blade Runner’

O sonho, a lembrança, a experiência e a imaginação são tesouros humanos que devem ser preservados

Postado em 24 de Junho de 2020 - Clayton Sales

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Não ganhou tantos prêmios de peso do cinema, angariou números modestos de bilheteria e foi subestimado por considerável parte da crítica na época do lançamento. Era um filme pronto para a lixeira da História, mas a fórmula para o esquecimento não funcionou neste caso. Pelo contrário. Atualmente, quando se fala em ficção científica, a primeira lembrança de muitos é "Blade Runner". Quando se fala em Ridley Scott, a primeira lembrança de muitos é "Blade Runner", mesmo depois do seu aclamado, badalado e laureado "Gladiador" (2000). Até quando se fala em trilha sonora, a lembrança de muitos é a paisagem musical hipnótica criada por Vangelis, que cintila em meio a sombras e trovoadas ruidosas. O longa-metragem "Blade Runner", que recebeu o subtítulo brasileiro de "O Caçador de Androides", foi exibido inicialmente em cerca de 1.300 salas de cinema dos EUA e Canadá em 25 de junho de 1982. O roteiro é baseado no romance "Androides sonham com ovelhas elétricas?", publicado originalmente em 1968 pelo escritor americano Phillip K. Dick, embora algumas ideias venham de outras referências e outras sejam originais. 

Desenvolvido sobre um então futurista ano de 2019, em uma Los Angeles noturna, chuvosa, soturna e caótica, o filme conta a história de Rick Deckard (Harrison Ford), policial aposentado intimado para a tarefa de exterminar robôs antropomórficos avançados conhecidos como Replicantes, criados pela Tyrell Corporation para a escravidão em colônias terrestres interplanetárias. Uma espécie de bug fez com que um grupo de Replicantes desenvolvesse autonomia e se rebelasse contra a situação que lhes foi programada. Dotados de faculdades humanas e sobre-humanas, a pouca durabilidade também foi implantada em seus sistemas, como forma de prevenir falhas e eliminá-los quando preciso. Essas criaturas, no entanto, queriam viver mais, logo, tinham que ser "retiradas" por Deckard. Entretanto, o personagem se apaixona pela doce e fatal Rachael (Sean Young), solitária, bela e questionadora mulher que, na verdade, também era uma Replicante, mas acaba salva por quem deveria executá-la. Salva pelo amor de Deckard. 

Rick Deckard é colocado em várias encruzilhadas morais no percurso para cumprir sua missão, que o levam a se indagar sobre a ideia de humanidade e se ela resplandecia mais nos Replicantes que nos humanos. O próprio Deckard é figura ambígua. Se os sonhos são a forma com que a mente se comunica conosco e as experiências que vivemos compõem sua linguagem, como ensinou Carl Jung, por que os sonhos do caçador são unicórnios? A mente de Deckard está narrando algum episódio de sua vida usando o ser mítico como signo ou foram enxertos, já que o policial Gaff (Edward James Olmos), que o recrutou, sempre deixava origamis de unicórnio perto do mercenário, como forma de lembrá-lo de alguma coisa, por exemplo, que ele teve acesso às suas memórias? Deckard ser ou não um Replicante foi uma das deliciosas charadas de "Blade Runner", resolvida pelo próprio Ridley Scott, quando declarou em entrevista ao podcast da revista Empire, em 2017, que o personagem é um Replicante. A questão voltou com força na sequência "Blade Runner 2049" (2017) de Dennis Villeneuve.

Mais do que isso, trata-se da representação de uma dialética: somos criadores (humanos) e criaturas (replicantes) de nós mesmos. O que nos define como humanos é a liberdade de nos moldar, mas ao mesmo tempo somos moldados por um mundo material e seus sistemas dominantes. Paradoxalmente, o filme mostra os Replicantes como seres que lutam pela básica liberdade humana de ter existência e essência, enquanto os humanos aparecem como massa conformada e despersonalizada (multidões nas ruas), com exceção de Eldon Tyrell (Joe Turkell), simbolizando o capitalismo tecnológico que almeja fabricar o "trabalhador perfeito": uma máquina ultraprodutiva e absolutamente silenciosa. Enquanto isso, os Replicantes, liderados por Roy Batty, nome humano para Nexus-6 (Rutger Hauer), usavam as habilidades superdesenvolvidas para encontrar meios de prolongar suas vidas úteis e para não voltarem a ser escravos. 

O momento mais fascinante de "Blade Runner" está localizado no final. Após uma perseguição tensa e alucinada, Deckard fica acidentalmente pendurado em uma viga no topo de um edifício, entre a vida e a morte. Com olhar sarcasticamente vitorioso, Roy Batty tripudia da situação desesperada de seu caçador, lembrando como deve ser terrível viver com medo, pois assim é a vida de um escravo. Depois disso, surpreendentemente, o androide o salva. Em seguida, sentido a aproximação do fim da sua durabilidade, ele profere suas palavras finais. Um monólogo sobre seu encanto com coisas fantásticas que alega ter visto, mas que se perderão como "lágrimas na chuva". Um manifesto pela vitalidade da memória humana e como ela é o sedimento da experiência de vida e alicerce do sentido de viver. 

A memória é um aspecto tão crucial em "Blade Runner" que outra reveladora passagem comove pela delicadeza. Após ser submetida ao teste Voight-Kampff e ter sua condição de Replicante detectada, Rachael, ainda convencida de que é humana, apresenta como prova de sua humanidade uma foto com a mãe. Deckard, então, evoca uma recordação de quando ela tinha seis anos de idade. Rachael afirma se lembrar e Deckard revela que foram implantes de lembranças da sobrinha do dono da Tyrell em sua mente. Rachael chora e Deckard tenta consolá-la. É possível imaginar a desolação que causaria a descoberta que todas as nossas recordações, na verdade, jamais foram vivenciadas, mas inseridas em nossa mente? Não desmoronaria toda estrutura do que somos porque parte dela é edificada sobre nossas experiências, processadas pela memória, alimentando afetos e ações? É um dos motivos por que "Blade Runner" alcança um estado de arte magnífico, posicionando a ficção científica como gênero perfeito para questionamentos em que é preciso ultrapassar as fronteiras do mundo concreto para nos compreender.   

Visto com os olhos de hoje, "Blade Runner" é um filme multitemático. Trafega por liberdade, consumismo, caos urbano, liberdade, tolerância, capitalismo, tecnologia, colonização, amor e direito de viver, sonhar e lembrar.  Faz referências ao cinema noir e à verticalidade urbana de "Metropolis" (1927) de Fritz Lang, que aparece com clareza nas panorâmicas tomadas que sobrevoam Los Angeles. Se o 2019 real não povoou os céus das cidades com espaçonaves, foi mais um período do século 21 que transborda incertezas sobre a humanidade. As gigantes tecnológicas como Facebook movimentam seus negócios vendendo "experiências", para quem bilhões de usuários terceirizam suas memórias. Porém, "Blade Runner" ensina que vida e liberdade são lutas diárias. O sonho, a lembrança, a experiência e a imaginação são tesouros humanos que devem ser preservados. Para que nossa humanidade não se perca como lágrimas na chuva.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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