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Domingo 05.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna Cine Drops

O cinema nos tempos do cólera

Superados os tempos do coronavírus, nada que o amor pela sétima arte não resolva

Postado em 20 de Março de 2020 - Clayton Sales

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O amor de Florentino por Fermina é a jornada de um sentimento sobrevivente. No clássico romance de Gabriel García Márquez, a jovem Fermina é obrigada a se separar de Florentino e se casa com o renomado médico Juvenal Urbino. Envelhece ao seu lado até a viuvez. Então, Florentino reaparece na vida de Fermina, declarando seu inquebrantável sentimento por ela. Ao se reaproximarem no final de seus dias, Fermina e Florentino compensam um pouco o obstáculo que pareceria intransponível: as distâncias. De espaço, tempo e vidas. Publicado em 1985, "O Amor nos Tempos do Cólera" é ambientado numa Colômbia afetada por uma epidemia de cólera e Gabriel García Márquez coloca a paixão de Florentino numa dança dialética entre beleza e doença, a expressão maravilhosa do amor a ponto de desaguar em sintomas. A distância é o catalisador dessa confusão adorável de sensações. A obra ganhou uma versão cinematográfica razoável pelas mãos do roteirista Ronald Harwood e do diretor Mike Newell em 2007, com Javier Bardem no elenco.

Assim, a distância física provavelmente será o combustível para uma nova forma de convivermos com a sétima arte. Em tempos de coronavírus, a Organização Mundial de Saúde recomenda enfaticamente que mantenhamos o isolamento social, já que o vírus se propaga pelo contato humano. Como as salas de cinema são espaços de aglomeração, a experiência coletiva de assistir a um filme na grande tela é desaconselhada pelas autoridades sanitárias. Por essa razão, as empresas de cinema anunciaram fechamento de salas em todo mundo, ação que colabora para a saúde pública mas que deixa circulando no ar muitas inquietações para o futuro. São questões geralmente de ordem econômica, já que o cinema é uma imensa cadeia produtiva que emprega milhares de pessoas em todo o planeta.

Como as perspectivas de controle da pandemia ainda estão nubladas, a situação aponta para uma aceleração compulsória nas mudanças da forma como consumimos filmes. Ficar em casa é a ordem global e é assombroso imaginar se um surto mundial dessa proporção ocorresse há uma década, quando os serviços de streaming audiovisual ainda não eram populares. Ou não tão assombroso, já que os livros adormecidos na estante, os discos e CDs amontoados em caixas, e os DVDs e VHS entocados no baú seriam a companhia para dias de confinamento. Quem sabe não podem nos acompanhar de novo, como aquele amigo que revemos depois de anos e com quem recuperamos a convivência. A nostalgia será valiosa na atualidade pandêmica.

O fato é que Netflix, Amazon Prime Video e Globoplay, entre outros, legais e ilegais, se tornaram solicitados atrativos para atenuar os efeitos dessa limitação radical da mobilidade. É preciso ficar em casa mas é preciso buscar o que fazer em casa. Ver filmes é uma opção óbvia e os streamings estão disponíveis, não sem antes vir casado a uma preocupação de ordem tecnológica: o aumento exponencial da sobrecarga de dados na internet. Algumas operadoras já aumentaram a velocidade das conexões gratuitamente, mas espera-se um aumento no tráfego da internet. Isso pode impactar a qualidade das transmissões e prejudicar justamente essa alternativa para a época de quarentena. Imagina-se que as operadoras de banda larga estejam queimando suas mentes à procura de caminhos e soluções. Os preços dos pacotes asseguram o direito do consumidor de cobrar saídas.

Sob os escombros dessa hecatombe viral que assola o mundo, é provável que emergirão debates ainda mais frequentes sobre a arte cinematográfica na era digital. Discussões já são travadas há alguns anos, que ganharam força com o crescimento avassalador dos streamings e da resistência de setores tradicionais da indústria do cinema. A polêmica foi alimentada também nos festivais mais prestigiados. Em 2017, o presidente do júri do Festival de Cannes, Pedro Almodóvar, acendeu o pavio ao afirmar que desaprovava filmes não exibidos em salas de cinema competirem à Palma de Ouro, enquanto a Netflix não aceitava a regra de levar suas produções a esses locais. Em 2019, especulou-se que "Roma", encantador longa-metragem de Alfonso Cuarón, só não ganhou o Oscar de melhor filme por ser obra original da Netflix, embora tenha vencido a mesma estatueta no britânico BAFTA. O coronavírus deve bulir ainda mais nessa controvérsia.

Afinal, quais os impactos pós-pandemia no movimento das salas de cinema? Por quanto tempo as pessoas ainda temerão lugares de aglomeração mesmo depois de o coronavírus ser controlado? O streaming subverte a ideia de cinema por não proporcionar a mesma experiência que estarmos na grande sala? Ou pode se tornar a trilha de renovação da sétima arte? Alguns realizadores, como Martin Scorsese, já descobriram os encantos das plataformas digitais e produziu um de seus melhores trabalhos, "O Irlandês", pela Netflix. Os sinais do mercado cinematográfico são notáveis. O streaming pode não destruir o cinema convencional mas, assim como as mídias domésticas (VHS, DVD, blue-ray) levaram as empresas e estúdios de cinema a incrementar seus serviços agregados, seguirá redirecionando o interesse das plateias e as transformando em usuários caseiros.

Mesmo após a pandemia, é provável que a grande sala escura de magia e comunhão de fascínios continue a ser um entretenimento viável. No entanto, as plataformas digitais audiovisuais crescem e ganharão ainda mais força com a chegada da Disney+, streaming com funcionamento no Brasil previsto para novembro, com gigantes grifes como Disney, Marvel e Pixar em seu catálogo. Então, o cinema como arte e linguagem, o cinema como diversão e emoção, o cinema como agente de provocação, reflexão e denúncia, o cinema como crônica hiperdimensionada da humanidade e da natureza, terão que se adaptar à distância. Superados os tempos do cólera atual, nada que o amor pela sétima arte não resolva.


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Colunista

Clayton Sales

Clayton Sales

Clayton Sales é jornalista, radialista, professor e músico.


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