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Ano VII - Nº 328

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Coluna Agromundo

Atlas do Agronegócio apresenta lado B da cadeia agroalimentar no Brasil e no mundo

Concentração do setor, controle de mercado, desregulamentação, violação de direitos, lobby e ataques à biodiversidade são alguns dos temas analisados.

Postado em 12 de Setembro de 2018 - EcoDebate

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O Atlas do Agronegócio possui artigos originais de autores brasileiros e estrangeiros, que falam sobre a concentração do setor, entre outros temas como agrotóxicos, qualidade do alimento, conflitos no campo, lobby do agronegócio, biofortificação, condições do trabalho, resistência e agroecologia.

Com a presença da chef de cozinha natural Bela Gil, do apresentador Gregorio Duvivier e do coordenador da Articulação Nacional de Agroecologia Denis Monteiro, a publicação foi lançada no último dia 4, no Rio de Janeiro.

O Atlas, iniciativa das fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, aborda – com riqueza de dados – diferentes aspectos da cadeia do agronegócio e da indústria da alimentação no Brasil e no mundo. Concentração do setor, controle de mercado, desregulamentação, violação de direitos, lobby e ataques à biodiversidade são alguns dos temas analisados.

Propagandas de TV tentam vender a ideia de que o “Agro é Tudo”: motor da economia nacional, moderno, movido à alta tecnologia, gerador de empregos e divisas para o País. Há, no entanto, uma face obscura do agronegócio brasileiro que coloca o País no topo de outras listas, bem menos favoráveis.

O Brasil é campeão mundial na produção de alimentos geneticamente modificados, no consumo de agrotóxicos, no desmatamento de ecossistemas nativos e em assassinatos de defensores e defensoras de territórios tradicionais e do meio ambiente. É este o lado B do setor, uma realidade da qual o Brasil deveria se envergonhar profundamente.

Com riqueza de dados, mapas e infográficos, o Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos apresenta artigos de especialistas nacionais e estrangeiros que desvendam a cadeia do agronegócio no Brasil e no mundo e fazem um raio X da atuação das grandes corporações transnacionais que dominam o setor.

A publicação, uma iniciativa dos escritórios brasileiros da Fundação Heinrich Böll e da Fundação Rosa Luxemburgo, foi lançada nesta terça, dia 04 de setembro no Rio de Janeiro com debate com a presença da apresentadora e chef de cozinha natural Bela Gil, do coordenador da Articulação Nacional de Agroecologia Denis Monteiro sob mediação do apresentador Gregorio Duvivier.

Segundo Maureen Santos, coordenadora da Fundação Heinrich Böll e editora do Atlas, a tendência crescente de concentração da produção e distribuição da cadeia faz com que as definições sobre qualidade, preço e acesso sejam determinadas pelas grandes corporações do setor.

“Um exemplo é o mercado de sementes que, depois de fusões bilionárias, dominado mundialmente por apenas quatro empresas transnacionais que impõem a utilização de transgênicos e a padronização da produção para atender as necessidades da indústria alimentícia”.

O resultado é o cultivo cada vez mais raro de espécies nativas e sementes crioulas que garantem a diversidade e variedade de espécies, colocando em risco as tradições alimentares de diferentes culturas e regiões do Planeta.

“Diversidade é algo fundamental, é preciso entender que temos uma infinidade de espécies comestíveis no mundo e hoje estamos expostos a basicamente três grãos: milho, soja e trigo”, lembrou a chef Bela Gil. Ela afirmou que enxerga a alimentação como uma ferramenta de transformação política, ambiental e nutricional e salientou que é preciso ter políticas públicas para incentivar alternativas como a agroecologia.

O Atlas aborda ainda a realidade brasileira ao desvendar o lobby dos ruralistas em governos e no Congresso Nacional, a alta concentração de terra no País e os impactos da recente reforma trabalhista nas relações no campo, que podem aumentar os índices de trabalho escravo.

Produção a que custo?

Longe de se preocupar com a erradicação da fome ou garantir alimentos acessíveis e saudáveis para a população mundial, a cadeia do agronegócio busca aumentar produtividade e lucros de forma acelerada e com altos custos ambientais e sociais, aponta o Atlas.

Perda de fertilidade de solos, redução de biodiversidade, morte de oceanos e aumento crescente da emissão de gases de efeito estufa são algumas das consequências relacionadas à disseminação de novas tecnologias no campo e ao desmatamento.

No que diz respeito aos trabalhadores rurais e pequenos produtores, a situação não é diferente: postos de trabalho no campo estão sendo erradicados e produtores estão sendo expulsos de suas terras para dar lugar às grandes plantações de monocultura.

Temas como sementes, fertilizantes, maquinaria, marcas e cadeia de varejo, agrotóxicos, transgênicos, patentes, comércio global, lobby, investimentos, biofortificação, resistência e conflitos no campo, agroecologia e gourmetização da alimentação saudável são tratados de maneira direta, apontando os impactos desta realidade na alimentação da população mundial.

Embora a situação seja complexa e possa parecer desanimadora, há saídas e alternativas possíveis. O Atlas aponta ações de resistência de pequenos produtores, povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas, e apresenta alternativas já aplicadas no Brasil e no mundo, como a agroecologia.

Para Verena Glass, coordenadora da Fundação Rosa Luxemburgo e co-editora do Atlas, seu mérito é ter reunido em uma publicação uma grande diversidade de informações sobre a macro cadeia produtiva da alimentação o que alimenta a humanidade, e de como estes processos ocorrem. “Há uma tendência global de reduzir o ato de plantar e alimentar os seres humanos a sistemas mecanizados, informatizados e complexamente tecnológicos (e caros). A sabedoria de entender a terra, cuidar e firmar com ela uma parceria para a reprodução da vida está definitivamente na mira do capital”, diz.

“O lucrativo é um campo sem gente, sem diversidade, homogêneo e digitalizado? Penso que teríamos que nos questionar se o eficiente, em longo prazo, realmente é um plantio computadorizado, que pode colapsar, ou um camponês que conhece as deficiências da planta só de olhar ou tocar. O que temos visto, até agora, é que a Natureza reage ao que a agride. Assim como as populações nos territórios, que ainda vivem nela e dela”, avalia.

A íntegra do Atlas do Agronegócio  pode ser acessada clicando aqui.


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