Semana On

Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Coluna Ágora Digital

O dragão da estupidez

A semana política, do jeito que eu vi. Com o jornalista Victor Barone

Postado em 21 de Agosto de 2019 - Victor Barone

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O presidente da França, Emannuel Macron, quer que os países membros do G7 discutam uma pauta urgente: as queimadas na Amazônia. A cúpula acontece neste final de semana, em Biarritz, na França. Em postagem no Twitter ontem, ele disse: “Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. Membros da Cúpula do G7, vamos discutir em dois dias este tema emergencial!”

No post, Macron usou uma imagem antiga de uma queimada na Amazônia feita pelo fotógrafo Loren McIntyre. E foi justamente para esse detalhe que Jair Bolsonaro atentou na sua resposta, chamando a foto de falsa, também via Twitter: “Lamento que o presidente Macron busque instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazônicos p/ ganhos políticos pessoais. O tom sensacionalista com que se refere à Amazônia (apelando até p/ fotos falsas) não contribui em nada para a solução do problema.” 

Mas fotos verdadeiras não faltam. E, segundo a Nasa, que também monitora os focos de queimada por satélite, não há dúvidas de que os sinais de desmatamento estão aumentando nas últimas semanas. Douglas Morton, chefe do laboratório de ciências biosféricas da agência espacial dos EUA, analisou as imagens e compara o momento atual com o período entre 2002 e 2004, quando o desmatamento anual estava acima dos 20 mil km2 por ano. 

O presidente Jair Bolsonaro classificou no Twitter a convocação do presidente francês, Emmanuel Macron, para que o G-7 discuta a chamada “crise internacional” das queimadas na região amazônica de “mentalidade colonialista descabida no século XXI”. Bolsonaro ainda lamentou que Macron faça a convocação “sem a participação dos países da região”. Segundo o presidente, a intenção do mandatário europeu é alcançar “ganhos políticos pessoais” ao “instrumentalizar” uma questão interna do Brasil. Em live na quinta, 22, Bolsonaro chamou de “desfaçatez” o fato de Macron ter se referido à Amazônia como “nossa”.

Mas Macron não está sozinho. Ontem, o secretário-geral da ONU, António Guterres, também tweetou: “Estou profundamente preocupado com os incêndios na Floresta Amazônica. No meio da crise climática global, não podemos permitir mais danos a uma fonte importante de oxigênio e biodiversidade. A Amazônia tem de ser protegida”. Ontem, o Peru decretou estado de alerta para suas florestas na fronteira com o Brasil e a Bolívia, com receio de que incêndios se propaguem. 

Ao longo do fim de semana, protestos contra o desmatamento acontecem. A convocação alcança ao menos 40 cidades brasileiras e cinco capitais europeias. O assunto domina as redes sociais no mundo todo. Alguns famosos que, nos últimos dias, se manifestaram sobre o assunto são MadonnaCristiano Ronaldo, Djokovic e Hamilton. Há, inclusive, propostas bastante concretas na onda das manifestações, como um boicote aos produtos brasileiros (na hashtag #BoycottBrazil) e a sugestão de que, por aqui, ninguém coma carne durante um mês.

O medo é tanto que a Associação Brasileira de Produtores de Soja ousou dizer que os produtores rurais são as principais vítimas das queimadas ilegais. Mas quem leu o depoimento escrito pelo biólogo Izar Aximoff, que estudou por anos a recomposição de florestas no Rio de Janeiro após queimadas, sabe que as principais vítimas são outras: “É muito triste ver a floresta totalmente dizimada. Aquele cenário colorido, com flores, sons de animais, pássaros cantando, bichos se movimentando e cheiro de mata dá lugar ao silêncio, a animais carbonizados, a um cheiro de carne queimada, à desolação. Fica tudo preto e você fica sujo com aquele resíduo de carvão.”

Por tudo isso, Bolsonaro se viu obrigado a agir de alguma forma. Se de manhã, antes da manifestação de Macron, ele apostava dobrado, brincando com assunto sério, e acusava Marcelo D2 pela fumaça na região, na noite de ontem, pós-Macron, ele convocou uma reunião de emergência e assinou um despacho que determina que todos os ministérios adotem medidas de combate às queimadas na floresta amazônica. 

As ONGs acusadas de maneira irresponsável pelo presidente de serem responsáveis pelas queimadas preveem uma onda de ações na Justiça contra Bolsonaro pelas queimadas. A propósito: procuradores da República se condenaram ontem as declarações do presidente sobre as ONGs. E a Câmara de Meio Ambiente do MPF enviou um ofício ontem a noite para o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama e o ICMBio solicitando informações sobre ações de fiscalização para combate de queimadas e desmatamento em 2019.  

Por Outra Saúde

Ao falar do rebú internacional que brotou a partir das cinzas das queimadas na Amazônia, o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército e assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, postou uma sequência de tuítes em sua conta na rede social com críticas ao francês Emmanuel Macron, pelo que considerou uma afronta ¡a soberania brasileira sobre a região. Mas que bem que encaixavam no comportamento do presidente.

"A questão ultrapassa os limites do aceitável na dinâmica das relações internacionais. É hora do Brasil e dos brasileiros se posicionarem firmemente diante dessas ameaças, pois é o nosso futuro, como nação, que está em jogo. Vamos nos unir em torno daqueles que têm procurado trazer à luz a verdade sobre essas questões ambientais e indigenistas."

Considerando que o presidente tem afrouxado os instrumentos de fiscalização e controle, atacado cientistas que cuidam do monitoramento da floresta e propagado de forma irresponsável discursos permissivos levando a pecuaristas, madeireiros e garimpeiros a terem certeza da impunidade de uma Casa da Mãe Joana, há muita gente em todo o mundo que acredita que a maior ameaça hoje responde pelo nome de Jair Bolsonaro.

Qualquer tamanduá-bandeira em pânico por estar preso em uma clareira rodeada por chamas no interior do Pará sabe que Bolsonaro entregou de bandeja a desculpa necessária para o erguimento de barreiras comerciais tarifárias e não-tarifárias aos produtos brasileiros.

Soa, portanto, rasa a explicação dada por gente do governo brasileiro (de que há interesses econômicos e protecionismo por trás dos discurso de indignação ambiental), pois isso não é novidade alguma. O discurso serve, provavelmente, para não perder aliados dentro e fora do país – para quem sabe que a economia global não é uma grande comunidade de Ursinhos Carinhosos em que as pessoas se juntam pelo que é bom e belo, ter que ouvir o governo repetindo isso dói nos tímpanos.

Ao mesmo tempo, membros do governo estão apelando para justificativas infantis do tipo: o outro país desmatou mais, poluiu mais, matou baleias. Isso pode ser historicamente verdade, mas não importa agora, no meio do furação. Afinal, o tamanduá-bandeira supracitado sabe que ele é a bola da vez e o fogo está chegando perto. Independentemente de quem começou, é ele quem está na merda. Ele e parte da economia exportadora. O presidente, por outro lado, em seu universo paralelo particular, deve pensar: Grande Dia.

No dia 20 de junho disse Bolsonaro: "o que eles querem, o pessoal lá de fora, e alguns traidores aqui dentro, é fazer com que a Amazônia seja internacionalizada. Enquanto eu for presidente, pode ter certeza que não será". Ironicamente, enquanto denunciava uma suposta trama contra o país, convidava outros chefes de Estado para explorar a Amazônia, como o japonês e o norte-americano. Em abril, por exemplo, afirmou que ofereceu "abrir para Donald Trump explorar a região amazônica em parceria". Ou seja, ao mesmo tempo em que é tigrão com organizações da sociedade civil e movimentos sociais nacionais e estrangeiros e agências das ONU que atuam nas defesa dos direitos fundamentais no Brasil, é gatinho com governos e empresas estrangeiros.

Ao recuperar indiretamente o lema da ditadura do "integrar para não entregar", o governo não conta, por má fé ou ignorância, que a região já está integrada ao sistema global. Já foi internacionalizada. Desde o período militar, está conectada aos centros do capitalismo nacional e mundial através de cadeias produtivas que exploram recursos naturais, mão de obra e energia – o que não significou, necessariamente, melhora na qualidade de vida de populações tradicionais, camponeses e trabalhadores rurais. Pelo contrário, tá aí a floresta sendo tombada, a vegetação ardendo em chamas, ar e cursos d'água contaminados, indígenas sendo removidos à força, cinturões de pobreza nas cidades. A Amazônia é o bioma recordista em libertações de pessoas escravizadas na produção agropecuária e extrativista.

É claro que existem organizações não-governamentais picaretas. Até porque ONG é uma categoria que engloba toda pessoa jurídica que não é empresa ou governo – de igrejas, passando por times de futebol, museus até associações civis sem fins lucrativos. Mas, da mesma forma, existem empresas e governos desqualificados. O que leva à pergunta: quando o próprio governo se omite diante do comportamento irresponsável de setores da iniciativa privada nacionais ou estrangeiras ou é ele mesmo perpetrador de crimes, cidadãos não podem contar com a ajuda externa de ninguém só porque existe uma teia global de interesses?

Para o governo, quem defende desenvolvimento sustentável e o direito das populações tradicionais frente ao crescimento econômico sem limites está mancomunado com o interesse protecionista dos estrangeiros e age de má fé. Ou é ingênuo e não percebe que está sendo usado pelo inimigo. Nada sobre uma terceira opção: pessoas podem discordar da forma como é alcançado o crescimento e que acreditam que o sucesso econômico sem garantir dignidade não nos serve e está fadado ao fracasso.

O Brasil vai alcançar seu ideal de nação não quando for o celeiro do planeta, mas no momento em que seus filhos e filhas tiverem a certeza de que não serão expulsos de suas comunidades para dar lugar a plantações e hidrelétricas. Que não serão escravizados em fazendas gerando lucros no altar da competitividade. Que não precisarão cruzar os dedos para que o clima não enlouqueça e um morro deslize sobre sua casa ou seu carro. Que não serão assassinados por serem da "etnia errada". Que não terão sua vida transformada em um inferno pela ação ou as palavras de seu próprio presidente.

Por Leonardo Sakamoto

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, uma das principais articuladoras do acordo fechado entre o Mercosul e a União Europeia (UE), admitiu estar preocupada com possíveis embargos ao agronegócio brasileiro em decorrência da crise ambiental após as queimadas na Amazônia. “Acabei de saber das notícias e nos preocupa”, disse a ministra após evento em Brasília nesta sexta-feira, 23. Hoje, o governo da Finlândia, que acumula a presidência rotativa da (UE), pediu ao bloco econômico que avalie a possibilidade de vetar a compra carne bovina brasileira. Ontem, o presidente da França, Emmanuel Macron, também atacou o governo brasileiro e hoje disse que o país se opõe ao acordo. A ministra, no entanto, avaliou que é preciso “baixar a temperatura” das críticas globais e ponderou: “Temos de separar o que é queimada e o que é incêndio. Temos que fazer uma diferença entre esses dois acontecimentos, pois estamos vivendo uma seca grande”, disse. “A Região Norte do Brasil às vezes fica seis meses sem chuva. Esse ano está mais seco e tem queimadas maiores”.

Quem de fato exporta parece assustado com o governo. Depois de Blairo Maggi, é a vez de Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, reclamar. Para ele, é “questão de tempo” até algum país europeu boicotar produtos brasileiros. 

A preocupação com a imagem do Brasil nos exterior por causa da política ambiental defendida pelo governo não ronda apenas as ONGs e defensores do meio ambiente. O agronegócio também vê riscos de ser afetado. As principais angústias do setor estão relacionadas com a alta do desmatamento e os ataques do presidente Jair Bolsonaro à Europa, de acordo com o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito, que também é CEO da Agropalma. Na avaliação dele, o agronegócio não precisa avançar sobre as terras indígenas. Ele também não vê as ONGs como inimigo, mas sim, como um “player da economia”. Segundo Brito, a preservação custa – e os produtores deveriam ser remunerados por isso -, pois “a riqueza bioeconômica da Amazônia é incalculável”, disse em entrevista ao Valor durante a Semana do Clima, em Salvador, a mesma em que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi fortemente vaiado.

Na avaliação de Brito, é questão de tempo para que os europeus deixem de comprar do Brasil. “Não podemos transformar o presidente da República. O que podemos fazer, o nosso setor, é trabalhar, de forma uníssona para tentar reverter, o máximo possível, os danos”, diz. Sobre a cruzada de Bolsonaro contra a demarcação de terras indígenas, Brito se diz “frontalmente” contrário à posição do governo. “Não precisa (avançar sobre terras indígenas) e discordo frontalmente. Temos terra demais. Porque precisamos entrar lá? O que ganhamos com este discurso? Se tiver minério suficiente ali e de alta qualidade que beneficie o Brasil, ótimo. Já faz parte da Constituição brasileira. É só ter um projeto benfeito e o Congresso aprová-lo”, avaliou.

E uma circular enviada pelo Ministério das Relações Exteriores a diplomatas brasileiros no mundo todo os instrui a defender a política ambiental do governo Bolsonaro

Mas, obviamente, o discurso não cola para todo mundo. A OCDE vai avaliar a política ambiental brasileira. Isso porque o país, que quer entrar no clube dos países ricos, precisa adaptar sua legislação a 253 instrumentos da Organização. E 40% deles são nas áreas de meio ambiente e química. 

Já o senador Fabiano Contarato (Rede-ES), presidente da Comissão de Meio Ambiente, decidiu pedir ao Supremo Tribunal Federal o afastamento do ministro Ricardo Salles. Para o parlamentar, deveria valer a regra do impeachment: ele sustenta que Salles cometeu crime de responsabilidade nas suas decisões no cargo, além de perseguição a agentes públicos. 

Bolsonaro diz que tem um "sentimento": o de que ONGs são responsáveis pelos focos de incêndio da Amazônia – o que seria uma estratégia de expor o seu governo para o mundo. Questionado se tem provas, ele não as apresentou. Apenas afirmou que "isso não está escrito, não têm um plano para isso aí". Uma parte dos brasileiros também tem um "sentimento": o de que o presidente continua não tendo a mínima ideia de como governar o país.

Irritado, o presidente Jair Bolsonaro disse na quinta-feira, 22, que “em nenhum momento” acusou as ONGs de estarem por trás dos incêndios que atingem a Região Amazônica. Segundo ele, ele falou apenas em suspeitas. No entanto, voltou a repetir que no entender dele, “há indícios fortíssimos de que esse pessoal de ONG que perdeu ‘a teta’ deles” tem relação com as queimadas. O presidente afirmou que não há provas sobre a insinuação. Na opinião de Bolsonaro, apenas com um flagrante é possível descobrir os responsáveis pelas queimadas. “Podem ser fazendeiros, todo mundo é suspeito. Mas a maior suspeita vem de ONGs”, repetiu. Na saída do Palácio da Alvorada, o presidente também fez fortes ataques à imprensa, a que chamou de “irresponsável” e acusou de fazer “campanha contra o Brasil”.

Um dos aliados declarados do governo federal na Região Norte do País, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), discorda do presidente Jair Bolsonaro sobre as suspeitas de que ONGs são as principais responsáveis pelas queimadas no bioma. Segundo ele, “não condição de governador”, não trabalha com “achismos”, destacando que algumas organizações não governamentais fazem um bom trabalho na região. “No Estado do Amazonas, tem ONGs que desenvolveram trabalhos muito interessantes e sérios. Há algumas que desenvolveram trabalhos que deixam a desejar ou que cabe dúvida, mas cabe aos órgãos de controle avaliar”, disse ele em evento em São Paulo, organizado pelo Movimento Brasil Competitivo.

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, reforçou a tese do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de que países europeus mentem sobre o desmatamento na Amazônia com o objetivo de prejudicar relações comerciais do Brasil. A declaração ocorreu na quinta-feira 22. Questionado pela imprensa se viajaria à região para ver as queimadas de perto, o ministro disse que tinha compromisso “mais importante”. “Não, eu vou ver coisa mais importante. O projeto Acolhida, que nós estamos fazendo lá em Roraima”, disse, em referência à operação do governo, que acolhe e interioriza venezuelanos refugiados.

O BACALHAU É NORUEGUÊS

Depois da suspensão da ajuda financeira da Noruega para a luta contra o desmatamento na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar Oslo e sua caça às baleias, mas usando imagens erradas, o que provocou piadas nas redes sociais. “Veja a matança das baleias patrocinada pela Noruega”, tuitou Bolsonaro.

O tuíte inclui um vídeo e fotos que mostram, com uma música melancólica ao fundo, o resultado de uma caça em massa de cetáceos, depois abatidos na praia, com o sangue tingindo as águas de vermelho. O problema é que as imagens supostamente feitas em 29 de maio na Noruega ilustram um festival de caça tradicional chamado ‘grindadráp’ nas Ilhas Faroe, um território dependente da Dinamarca no Atlântico Norte.

O tuíte de Bolsonaro provocou indignação em alguns internautas e foi motivo de piadas para outros nas redes sociais. “Haha, que presidente idiota o Brasil tem! NÃO É a Noruega! Não matamos assim as baleias. Informe-se se quiser ser respeitado! É uma ‘Fake news’, como diria Trump”, reagiu um usuário do Twitter. “Informação falsa é um crime, senhor Presidente”, afirma outro.

A Noruega é um dos poucos países do mundo que autoriza a caça comercial de baleias, e por isso também é criticada por ONGs ligadas ao tema.

PODE SER AINDA PIOR

Nas reportagens que falavam sobre o avanço do desmatamento na Amazôniaapontados pelo Inpe, o Instituto salientava certas características das suas imagens que poderiam maquiar resultados – a interferência de nuvens, por exemplo. Após quatro anos de monitoramento, pesquisadores da Universidade de Oklahoma mediram o desmatamento entre o ano 2000 e 2017 por um método que obtém imagens mesmo com a presença de nuvens. E chegaram a um resultado ainda pior: em vez dos 180 mil quilômetros quadrados de área desmatada registrado pelo Inpe, encontraram 400 mil. As descobertas estão em um artigo publicado na Nature Sustainability. E dois brasileiros, servidores do Inpe, participaram dos estudos.ça

Além da questão das nuvens, interfere no resultado uma diferença no conceito de área desmatada: para o Inpe, entra apenas a floresta primária; para essa pesquisa, entra toda a cobertura florestal. Mas o desmatamento não foi constante ao longo de todos estes anos: entre 2001 e 2013, houve avanço no reflorestamento, e a Amazônia teve um ganho de 21% de floresta. 

A propósito, desmatamento e fogo caminham juntos. Há incêndios recentes espalhados pelo mundo: na Sibéria, 54 mil quilômetros quadrados de floresta queimaram no último mês; na segunda-feira, um incêndio nas Ilhas Canárias obrigou mais de oito mil pessoas a fugir; no fim de semana, chamas no Alasca; na semana passada, o fogo na Groenlândia se aproximou de áreas habitadas. Esses lugares enfrentaram grandes aumentos de temperatura no último mês, o que favorece a ocorrência de incêndios. Mas a floresta amazônica, que permanece encharcada durante a maior parte do ano, não queima naturalmente, lembra a Vox: o fogo é aceso por agropecuaristas para a “limpeza” da terra, ou por grileiros para expulsar indígenas. 

NO CONGRESSO

A MP da Liberdade Econômica foi aprovada pelo Senado. E há uma boa notícia: foram retirados do texto os artigos que flexibilizavam o trabalho aos domingos. Isso aconteceu depois de um acordo entre oposição e governo. Como resultado, foi apresentado um requerimento de impugnação de matéria estranha – para retirar os jabutis do texto – excluindo a possibilidade de folga semanal de 24 horas em outros dias da semana, que não seja o domingo, e a dispensa do pagamento em dobro por trabalho nos domingos e feriados. O texto segue para sanção de Jair Bolsonaro.

Enquanto isso, da Câmara, vem uma má notícia: foi aprovado ontem, por 320 votos contra 61, um projeto de lei que autoriza a posse de arma em toda a extensão da propriedade rural. Atualmente, a posse só é permitida na sede. O PL 3.715/19 segue para sanção presidencial.

E também ontem foi instalada a comissão mista que vai analisar a MP 890, que cria o programa Médicos pelo Brasil

FREUD EXPLICA

As piadas de mau gosto e discursos constrangedores do presidente Jair Bolsonaro (PSL) são sinais de insegurança do presidente sobre o cargo que ocupa. A afirmação é do psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, o presidente se comporta como um aluno da 5ª série com objetivo de cristalizar sua base de seguidores por meio de uma suposta “autenticidade”. As piadas, como a do “troca-troca”, feita com seus ministros Sergio Moro e Ricardo Salles, também dizem sobre o presidente, explica o professor. “A gente vê essas brincadeiras na 5ª série, quando os meninos são inseguros sobre sua sexualidade”, aponta Christian.

LÍDER DE TORCIDA

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista à TVE Bahia, disse que Bolsonaro atua como um chefe de torcida, pois a “a quantidade de besteira” que o presidente fala é para agradar a sua torcida composta por “fanáticos”.

ABAFA

Está em franco andamento algo muito parecido com uma megaoperação abafa. O movimento passa por intervenções em órgãos estratégicos como Receita Federal, Polícia Federal e Coaf. Inclui a sucessão na Procuradoria-Geral da República. Envolve, de resto, investidas legislativas como a recém-aprovada Lei de Abuso de Autoridade, pendente de sanção presidencial.

Um dos aspectos mais incômodos do abafa é o comportamento de Jair Bolsonaro. Eleito como solução por mais de 57 milhões de eleitores, o capitão tornou-se parte do problema. Atua movido pelo interesse pessoal e dos filhos. As conveniências do filho 01  conduziram Bolsonaro para um cerco ao Coaf e à Receita, numa parceria tóxica com o presidente do Supremo, Dias Toffoli.

As circunstâncias do filho 03 empurraram Bolsonaro para um balcão onde a cadeira de embaixador em Washington é trocada por favores variados, inclusive a eventual sanção de artigos radiotivos da Lei de Abuso de Autoridade. Alega-se ao redor do presidente que não há nada de anormal no fato de Bolsonaro querer premiar um filho ou nomear auditores e delegados de quarto ou quinto escalão. O diabo é que em política nada é uma palavra que pode ultrapassar tudo.

Vai ficando difícil para Bolsonaro manter a pose. Mantida a lealdade do presidente da República à sua dinastia em detrimento dos interesses republicanos, será preciso começar a chamar o fenômeno pelo nome: estelionato eleitoral. Bolsonaro elegeu-se enrolado nas bandeiras da ética e da meritocracia. Está entregando outro tipo de mercadoria.

Por Josias de Souza

FRITINHO

Já se sabia que Bolsonaro havia jogado Sergio Moro na frigideira. Descobre-se agora que o presidente aderiu à cozinha experimental. Implantou no seu governo uma inovação culinária. Depois de verificar que o ex-juiz da Lava Jato exibe uma resistência incomum ao óleo quente, Bolsonaro decidiu testar a fritura por micro-ondas.

Empurrou o ministro para dentro do forno ao insinuar que, se lhe encherem o saco com as intervenções que realiza na Polícia Federal, pode atropelar Moro para trocar o próprio diretor-geral do órgão, Maurício Valeixo. Bolsonaro virou o botão para a temperatura máxima ao dizer coisas assim: "Está na lei que eu que indico, não o Sergio Moro". Ou assim: "Ele é subordinado a mim, não ao ministro. Deixo bem claro isso aí."

Bom, já não há espaço para dúvidas. O que está em jogo não é o pescoço do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro ou o escalpo do diretor-geral da polícia. Quem frequenta o noticiário com a cabeça a prêmio é o próprio Sergio Moro. Bolsonaro parece decidido a tostar o auxiliar antes de descartá-lo.

Bem passado, Moro teria, na visão do presidente, menos condições de virar um adversário político. Diante da operação culinária executada por Bolsonaro, Moro pode optar por dois caminhos: ou pede para sair ou opta pelo cinismo, e vai desfrutar da ilusão de que um pedaço de carvão pode ser ministro de Estado.

Por Josias de Souza

O presidente Jair Bolsonaro voltou a dar recado no estilo “quem manda aqui sou eu”. Na quinta-feira, 22, ele disse que o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, é subordinado a ele, e não ao ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro. Ele não descartou a possibilidade de eventualmente trocar o chefe da PF. “Se eu trocar (o diretor-geral da PF) hoje, qual o problema? Está na lei que eu que indico, e não o Sergio Moro. E ponto final”, declarou Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada.

O QUINHÃO DOS MAIS RICOS

Um levantamento feito pelo Estadão/Broadcast a partir de dados da Receita Federal mostrou que, entre os brasileiros que declaram IRPF, os 19,7% mais ricos (que ganham mais de dez salários mínimos por mês) abateram R$ 44,4 bilhões em despesas com saúde na declaração do ano passado. Isso é 56% do valor total das deduções com saúde. Como dissemos por aqui, o governo federal chegou a anunciar o fim das deduções, mas depois voltou atrás e disse que estuda a fixação de um teto. Na educação, área em que o teto já existe, a parcela mais rica da população também é a mais beneficiada, segundo a matéria. Em 2018, quem ganhou acima de R$ 9.370 mensais descontou R$ 8,6 bilhões dessas despesas, ou 40% do total. Mas o economista José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público, afirma que para resolver o problema não basta uma mudança no IRPF – isso porque os mais ricos do país que estão no setor privado já deixaram de ser pessoas físicas perante a Receita, e recolhem tributos em condições bem mais favoráveis como pessoas jurídicas: o 1,1% mais rico entre os declarantes recebeu R$ 414,7 bilhões isentos de qualquer tributação.

“MELHOR MORRER NA LUTA”

De Olho nos Ruralistas começou uma série em que vai publicar, toda semana, a trajetória de uma mulher que se tornou símbolo da resistência no campo. Começa com Margarida Maria Alves, que dá nome à Marcha das Margaridas. Em um contexto extremamente machista, ela foi presidente do sindicato rural de Alagoa Grande durante a ditadura, lutou contra latifundiários e pelos direitos trabalhistas dos camponeses de uma usina, expostos a situações de trabalho escravo. Foi ameaçada de morte diversas vezes. Quando aconselhada a sair do sindicato por isso, respondeu: “É melhor morrer na luta do que de fome”. Foi assassinada em 1983, com um tiro no rosto. Os assassinos nunca foram condenados. 

DESASTRE

Aliados do governo e gente que atua diretamente mesmo na sua equipe desaprovaram o ataque feito por Eduardo Bolsonaro a Emmanuel Macron. O filho publicou postagem que circula nas redes que chama o presidente francês de “idiota”.  “A disputa no Senado está voto a voto. Qualquer ‘evento’ faz diferença. Seja um parecer do Senado que classifica indicá-lo como nepotismo ou arroubo desnecessário em redes sociais, que não resolve a situação do pai, mas complica a sua” – diz gente que trabalha para aprovar Eduardo embaixador. Ministros palacianos têm atuado no corpo a corpo, como revelou Radar. São os casos de Onyx Lorenzoni e o general Ramos.

Se a votação da indicação de Eduardo Bolsonaro (PFL-SP) para a embaixada do Brasil em Washington (EUA) fosse hoje, o deputado federal não teria votos suficientes dos senadores no plenário, segundo mostra levantamento do Estadão. Dos 81 senadores, 30 responderam que pretendem votar contra o nome do “filho 03” do presidente, ante 15 que disseram ser a favor. Outros 35 não quiseram responder (28) ou se colocaram como indecisos (7). Sem votos certos, Bolsonaro afirmou na semana passada que só irá oficializar a escolha quando Eduardo “sentir” que tem o apoio majoritário dos senadores.

Apesar do presidente Jair Bolsonaro colocar a suposta “amizade” de seu filho, Eduardo, com os filhos de Donald Trump como credencial para que o deputado vire embaixador nos EUA, o próprio “03” admite que teve apenas “encontros rápidos” com os herdeiros do presidente norte-americano. “Eu tive contatos rápidos com dois filhos dele, na verdade três”, disse Eduardo em entrevista ao SBT. Ele detalhou os encontros: com Donald Trump Jr. foi uma conversa em uma convenção de armas, com Eric Trump tirou uma foto em um resort e Ivanka conversou com ele na visita à Casa Branca. O Senado irá sabatinar Eduardo Bolsonaro para aprovar ou não sua indicação ao cargo.

PACTO

O ex-ministro do Supremo, Ayres Britto, criticou ao “pacto” feito pelo presidente da Corte, Dias Toffoli, com os outros dois Poderes. Para Britto, o Judiciário “nada tem a ver” com o compartilhamento de funções que existe entre o Legislativo e o Executivo. “Até porque, quando se mete a se familiarizar com os outros Poderes, o Judiciário termina cooptado. Quanto mais os Poderes seguirem a Constituição, menos vão depender um do outro. Que cada qual fique no seu quadrado normativo, e a harmonia será uma resultante”, afirmou para O Globo.

EFEITOS DO DECRETO

Foi publicada no Diário Oficial uma portaria assinada por Damares Alves em que a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos extingue seis órgãos colegiados ligados à pasta. Dois deles foram criados no ano passado – o Comitê de Gênero e o Comitê de Diversidade e Inclusão –, com o propósito de promover a prevenção da violência e apoiar a diversidade sexual. A decisão é uma consequência do decreto 9.759, editado por Bolsonaro em abril, que extinguiu todos os espaços de participação da sociedade civil no governo que não foram criados por lei ou pela própria gestão.

Relatores da ONU estão preocupados com o decreto 9.759, de abril, que extinguiu conselhos de participação social no Brasil. Para eles, a decisão “mina o espaço cívico” e a “participação da sociedade civil dentro do governo federal”.  A informação é do jornalista Jamil Chade, que também conta como foi a resposta do governo brasileiro: no último dia 14, o Itamaraty mandou uma carta às Nações Unidas justificando que “a proliferação excessiva” de colegiados custava caro ao Estado. Segundo o governo, o decreto visa “valorizar órgãos com funções verdadeiramente participativas e que abordem temas que se relacionem claramente com a organização de órgãos e instituições públicas para a proteção dos direitos fundamentais, bem como com os temas que estabeleçam objetivos públicos relevantes”. Como? Quais são esses órgãos? Não diz. Vários colegiados já foram extintos. Esta semana mesmo foi a vez do Comitê de Gênero e do Comitê de Diversidade e Inclusão, entre outros. 

COMO EXPULSAR AGRICULTORES FAMILIARES

Conflitos armados e judicialização não são as únicas estratégias usadas para expulsar pequenos agricultores de suas terras. “Só não resisti ao veneno. Eu fiquei com a terrinha de 36 alqueires, no meio de uma área de 16 mil hectares de lavoura de cana. Era avião o dia inteiro, jogando inseticida, herbicida. Eles usavam de estratégia, minha área virou ponto de manobra do avião, ele fazia o retorno em cima da minha terra. O vento puxava o veneno e vinha uma chuva em cima de nós”, conta Valdiva Silva, que vivia num assentamento em Confresa (MT), resistiu a ameaças de morte e agressões físicas, mas não suportou os agrotóxicos despejados por produtoras de soja. 

Segundo a matéria da Agência Pública, seu caso não é isolado: “A maioria dos assentamentos menores, que têm terras boas para o agronegócio, tem passado por isso. Eles ameaçam de forma velada ou diretamente com o veneno, vão comprando propriedades ao redor, e quem aguenta? Com gado morrendo, plantação morrendo, perdendo a saúde?”, diz a engenheira agrônoma Polyana Rafaela Ramos, professora do Instituto Federal de Mato Grosso. A reportagem mostra como o problema é grave na cidade, que é 90% formada por assentamentos rurais. Além de prejudicar assentados, a fazenda  faz fronteira com a Terra Indígena Urubu Branco, onde vive o povo Apyãwa, conhecido como Tapirapé. 

O ABISMO REVELADO PELO SEQUESTRO

O sequestro de um ônibus na ponte Rio-Niterói foi notícia durante boa parte da semana, junto com as imagens do governador Wilson Witzel comemorando a execução do sequestrador. Circularam menos os vídeos de granadas sendo atiradas na favela Cidade de Deus, horas antes. Na Ponte, especialistas em segurança pública criticam o governo do Rio. E a OAB-RJ quer esclarecimentos sobre a ação policial.

Ninguém resumiu melhor a perplexidade gerada pelo episódio do que a repórter Malu Delgado, no Valor: “O papel de um governante é evitar ‘transtornos para a sociedade’, segundo ensinamento do governador do Rio, Wilson Witzel, postado no Twitter minutos depois de ele descer efusivo de um helicóptero, na ponte Rio-Niterói, com o punho erguido em sinal de vitória. Tudo registrado em tempo real por um assessor que seguia os pulinhos frenéticos do chefe, filmando o momento épico com um celular. O transtorno, que impediu o trânsito nas duas vias da ponte, por quase quatro horas, era um jovem de 20 anos que sequestrou um ônibus com 37 passageiros. Um bandido, no vocábulo usual da família Bolsonaro, ou um ‘homem mau’, de acordo com a definição bíblica do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que citou provérbios sobre os ‘gritos de alegria’ da cidade quando os ímpios perecem, ou, como no caso em questão, morrem. 

Os cidadãos (os brasileiros de bem, os cidadãos ordeiros, ainda parafraseando os filhos do presidente) que tiveram o curso normal da vida interrompido por algumas horas, impedidos de ir e vir (esse transtorno!), aplaudiram e reagiram com entusiasmo semelhante ao do governador Witzel quando ouviram os tiros disparados por um sniper, derrubando o sequestrador no momento em que ele havia descido do ônibus. Antes, num tenso processo de negociação conduzido pela polícia, seis reféns tinham sido libertados.

Soube-se logo depois da morte celebrada pelos políticos – in loco ou em exultantes comentários nas redes sociais – que o sequestrador portava uma pistola de brinquedo e gasolina numa garrafa pet, além de estar em aparente surto psicótico. (…) Coube à polícia sobriedade técnica para discorrer sobre o episódio, num contraste claro com o discurso que cresce em setores políticos, o da banalização da vida como política pública. Witzel disse a jornalistas que ‘a população aplaudiu, mas não a morte de um ser humano’. Admitiu que não foi capaz de conter a ‘felicidade’, pois 37 vidas foram salvas. Para que a naturalização da morte não soasse distópica, o governador do Rio registrou que rezou um Pai-Nosso à vítima e que a mãe do sequestrador ‘estava se perguntando onde ela teria errado’. Precisamos todos acreditar que há algum traço de humanidade na mente daqueles que governam.”  

“Witzel é a pior mistura de sociopatia com oportunismo”, classificou Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e presidenciável em 2018 pelo PSOL.

MAIOR ÍNDICE

O Instituto de Segurança Pública divulgou números que revelam que as mortes cometidas por agentes do Estado no Rio de Janeiro em julho atingiram o maior patamar desde que o dado começou a ser contabilizado, 20 anos atrás. Foram 194 homicídios em julho, num total de 1.075 em 2019 – cerca de 20% a mais do que no mesmo período do ano passado. A região metropolitana concentrou 178 mortes por intervenção de agentes do Estado no mês passado. E, contrariando o discurso que tenta equiparar a violência estatal com a violência do crime contra o Estado, nenhum policial foi morto em julho. Em 1998, quando o ISP começou a acompanhar o tema, a polícia matou 18 pessoas em todo o estado. Analistas são unânimes em dizer que a política do governador Wilson Witzel tem tudo a ver com a piora no índice. 

ESCOLAS

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, rebateu os comentários feitos pelo deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) a respeito da manifestação organizada por estudantes do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no Rio de Janeiro. Os alunos protestavam contra a indicação do novo diretor-geral para a instituição, Maurício Aires Vieira, que foi indicado por Weintraub e nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro. Em seu Twitter, Freixo escreveu que os alunos disseram “‘não’ à intervenção no Cefet”, que, segundo Freixo, teria passado por cima da “eleição interna e democrática” da instituição. Weintraub rebateu dizendo que o deputado “usa jovens por estar errado”, e acusou-o de hipocrisia.

QUEM MAIS PERDEU

A Universidade Federal do Sul da Bahia abriga 4,5 mil alunos de graduação e pós-graduação – cerca de 80% deles de famílias de baixa renda –, tem um projeto político-pedagógico pautado por ideias de intelectuais como Anísio Teixeira, Milton Santos e Paulo Freire, e foi a federal que mais perdeu recursos com os cortes do MEC: seu orçamento caiu para menos da metade. No Intercept, Juliana Saiyuri entrevistou sua reitora, Joana Angélica Guimarães. “Não é tom de ameaça, não é retaliação. É realidade: não há condições concretas para continuidade (…). Se continuar assim, fechar a universidade é o último passo.”

Em tempo: a situação do CNPq segue sem solução. O conselho deliberativo da Fiocruz e a Associação Brasileira de Ciência Política publicaram notas de apoio. 

CONDENADO

O juiz Francisco Carlos Inouye Shintate, da primeira Vara Eleitoral, condenou o ex-candidato à Presidência Fernando Haddad (PT), por crime de caixa 2 pago pela empresa UTC Engenharia na campanha eleitoral de 2012, quando foi eleito Prefeito de São Paulo. A pena estipulada é de quatro anos e seis meses em regime semiaberto. A suspeita é a de que recursos da empreiteira UTC foram utilizados para confecção de materiais de campanha do petista. O juiz, no entanto, absolveu o ex-prefeito de outras acusações, como lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. A defesa de Haddad diz que vai recorrer da decisão, e que a decisão foi tomada com base apenas em uma delação premiada do executivo Ricardo Pessoa, que teria sido “prejudicado pelo então prefeito, que cancelou seus contratos com a Prefeitura de São Paulo”. Além disso, os advogados de Haddad afirmam que o ex-prefeito não foi acusado pelo crime em questão. “O juiz absolveu Fernando Haddad de lavagem de dinheiro e corrupção, crimes dos quais ele não foi acusado. Condenou-o por centenas de falsidades quando a acusação mal conseguiu descrever uma. A lei estabelece que a sentença é nula quando condena o réu por crime do qual não foi acusado”, afirmou a defesa, em nota.

Fernando Haddad reagiu enfaticamente à condenação imposta a ele de 4 anos e 6 meses em regime inicial semiaberto por suposto caixa 2 nas eleições de 2012. Em sua conta no Twitter, o candidato derrotado à Presidência escreveu que “não há hipótese de eu não vencer” o processo. Haddad ainda pode recorrer. Segundo a denúncia, o ex-prefeito teria recebido R$ 2,6 milhões em caixa dois da empreiteira UTC Engenharia. Na mesma sentença, o petista foi absolvido por falsificação de notas fiscais, quadrilha, corrupção passiva, improbidade e lavagem. “Quatro anos atrás, eu fui acusado de ter recebido uma doação da UTC para o pagamento de uma gráfica que não teria sido contabilizado na minha prestação de contas. Passados 4 anos, eu provei que o delator mentiu. Eu disse isso o tempo inteiro. Eu não recebi esse dinheiro, a gráfica não prestou esse volume de recursos para mim”, afirma em entrevista ao Estadão.

DEU RUIM

“Doria precisa entender que o PSDB não é o Lide.” A frase, dita não por um adversário, mas por um aliado, dá a dimensão da derrota que o governador de São Paulo sofreu na quarta-feira, quando a Executiva Nacional do PSDB, ou o “Novo PSDB”, como Doria passou a propagandear, derrubou pelo placar de 30 votos a 4 dois pedidos de expulsão do deputado e ex-presidenciável Aécio Neves. Os únicos que votaram pela expulsão do mineiro foram paulistas: o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, o deputado Samuel Moreira, o secretário de saúde da prefeitura de São Paulo, Edson Aparecido, e o tesoureiro nacional do partido, César Gontijo.

Mineiro, Aécio atraiu figuras de fora de Brasília para votarem em si, relembrou favores, obteve solidariedade (afinal, são muitos os enforcados nessa loja de cordas que virou o ninho tucano) e saiu de lá sorridente, desfilando pelo plenário e obtendo cumprimentos efusivos. Se a nova política não tomar algumas aulas de estratégia, não adianta nada slogans bons para hashtags e personalidades midiáticas. O PSDB está no auge de sua crise, e a saída não parece fácil nem próxima.

Por Vera Magalhães

MINISTRO SE UNE AO CORO

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse ontem que é contrário ao plantio de cannabis no Brasil para a produção de medicamentos, embora apoie o registro dos remédios. Em alguma medida ele se afasta um pouco da moralidade de Osmar Terra, o ministro da Cidadania que já até falou em fechar a Anvisa. Mandetta enveredou para um lado mais econômico da coisa. Afirmou que ainda são poucas as doenças para as quais o canabidiol é comprovadamente eficiente, então não valeria a pena plantar: “Como o volume é pequeno, não justifica você fazer uma fábrica que vai ficar com um preço enorme para aqueles pacientes. Então a gente acha que deve dar o registro, deve trazer a molécula. Se quiser importar, importa. Mas não vejo nenhuma razão para gente colocar um estoque enorme de THC, com os malefícios que o THC traz”.

É estranho, porque a maconha medicinal movimenta um baita volume de recursos. A indústria, que está na expectativa da regulamentação, parece achar que sim, vale a pena. E, para os pacientes, importar também tem um “preço enorme”… 

“Não falamos em plantação de opioides, por exemplo, para produção de morfina“, disse o ministro. E, quanto à maconha recreativa, sua posição está bem fechada: “Para nós, da Saúde, seria uma droga a mais para a gente lutar. Se você pega álcool, tabaco, que são drogas legalizadas, você tem uma luta enorme pelo malefício de ambos”, afirmou. Mas não defendeu a proibição de álcool ou tabaco. 

A Anvisa, por sua vez, segue afirmando que faz parte de suas atribuições legais decidir sobre a fabricação e o controle de medicamentos. então suas decisões nessa área não precisam ser reiteradas pelo governo nem pelo Congresso.

PICA DAS GALÁXIAS

Num vídeo em tom indignado, o senador Flávio Bolsonaro acusa as Organizações Globo de ter declarado “guerra” ao governo e “dia sim, dia também”, atacá-lo para atingir seu pai, Jair Bolsonaro. “Agora tudo o que acontece no governo cai na minha conta. Eu sou o pica das galáxias do Brasil agora sobre o que acontece no governo”. Segundo ele, reportagens pretenderiam atribuir a ele iniciativas de Jair Bolsonaro para intervir em órgãos como Coaf, Receita Federal e Polícia Federal. Eu mesma escrevi minha última coluna mostrando justamente essa relação entre os acontecimentos. Para ler, clique aqui.

Para Flávio, a narrativa é mostrar que as atitudes do pai não seriam “responsáveis”, e para “melhorar a gestão” desses órgãos, e sim para “atender um interesse pessoal” dele. “Esse jornal não é isento”, diz ele, brandindo edições de O Globo e Extra, do mesmo grupo. Ele negou que tenha endossado o nome de Antonio Simões para a Procuradoria-Geral da República. Disse que recebeu vários candidatos à PGR. “Tentam botar na minha conta para desqualificar uma pessoa que conheço há poucas semanas, nunca tinha visto na minha vida”, diz ele.

Por Vera Magalhães

RIFADINHO

Diante da avalanche de reações contrárias à política ambiental do governo federal nas últimas semanas, potencializada na quinta, 22, o Novo publicou uma nota em que diz que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é filiado ao partido, não representa a instituição e que não há qualquer interferência do Novo na gestão da pasta. Além disso, deixa claro que, se dependesse hoje do Novo, Salles não faria parte do partido mais. “O Diretório Nacional do NOVO emitiu, em 31/05/2019, uma resolução determinando que qualquer filiado que venha a participar em um cargo público relevante em qualquer instância de governo, quando não for indicado pelo NOVO, deverá solicitar a suspensão da sua filiação. A resolução, como estabelece a lei, não tem efeito retroativo, e portanto, não se aplica ao ministro”, diz o texto.

Com o partido Novo rifando o ministro Ricardo Salles por causa do imbróglio ambiental envolvendo a Amazônia, o PSL já se movimenta para paquerar o atual titular da pasta do Meio Ambiente. Um dos vice-líderes do partido na Câmara, o deputado Filipe Barros (PSL-PR) avisou que já convidou Salles para ser o mais novo integrante das fileiras do partido do presidente Jair Bolsonaro. “Encontrei o ministro Ricardo Salles hoje cedo no Palácio do Planalto. Disse que o PSL está de portas abertas para ele, já que o Novo, covardemente, não o quer mais lá”, disse Barros.

Os senadores Randolfe Rodrigues, Fabiano Contrato e a deputada federal Joênia Wapichana, os três da Rede, protocolaram na quinta-feira, 22, no STF, um pedido de impeachment do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. É a primeira vez na história que o Supremo recebe um pedido de afastamento de um ministro de Estado. Eles também protocolaram uma Ação Direta de Inconstitucionalidade por omissão. No entendimento dos parlamentares, dois deles da Região Amazônica (Rodrigues e Wapichana), o ministro cometeu crime de responsabilidade em suas decisões no cargo.

Pelo Twitter, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva afirmou que Salles descumpre “o dever funcional relativo à Política Nacional do Meio Ambiente e à garantia do art. 225 da Constituição Federal” e por isso pede #ForaSalles. O artigo citado pela ex-ministra diz que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Marina, que também é da Rede, afirmou que o governo tem uma “postura irresponsável” que “só agrava a emergência ambiental no Brasil”. O ministro foi procurado para comentar o assunto, mas não se manifestou até o momento.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, reagiu a nota do partido Novo que tenta negar a relação da sigla com o Ministério do Meio Ambiente, comandado pelo filiado Ricardo Salles. Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Salles tem entrado em atrito com ambientalistas por defender mudança nos índices de desmatamentos e culpar Organizações Não Governamentais pelo aumento das queimadas na floresta amazônica. Weintraub afirmou que Salles sofre uma "campanha difamatória" e em tom de crítica disse que mudou a percepção sobre o presidente do partido Novo, João Amoedo. O colega de Esplanada de Salles disse que acreditava que Amoedo "era um tucano com noções de economia", mas que agora ele percebe que ele "não é tucano".

IMPROVÁVEL

“Deus escolheu o mais improvável dos deputados para ser presidente e o capacitou”, essa é a avaliação do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. O afago do também ex-deputado vem depois de uma série de notícias, nos últimos meses, de que ele poderia estar sendo “fritado” pelo Planalto. A afirmação de Onyx foi feita na quinta-feira, 22, em evento do Grupo Voto. Segundo ele, o presidente quer “transformar o País”. “Foi a maior votação da história de um candidato adversário ao PT, com princípios, com valores. Porque é o que a sociedade quer. E ele (Bolsonaro) nos cobra o tempo todo em reuniões de que a gente tem oportunidade única de transformar esse país”, disse, completando: “O presidente é um cara super humilde, o senso de missão pelo Brasil contagia a todos nós”. Antes da fala de Onyx, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, elogiou o titular da Casa Civil, dizendo que foi essencial na articulação pela votação da reforma da Previdência: “ele é nosso antidepressivo, um grande articulador político”.

CHORÃO

O novo deputado tucano Alexandre Frota (SP) arrancou lágrimas de Rodrigo Maia ao agradecer ao presidente da Câmara por sua ida para o PSDB, durante sua apresentação à bancada federal da sigla ontem, ao lado do governador paulista João Doria. Frota afirmou: "Queria fazer que me surpreendi demais contigo e quero que você saiba que eu devo a minha chegada ao PSDB a você, a você Rodrigo Maia. Quero agradecer de coração e precisava te falar isso. aqui na frente dessas pessoas. Não tenho vergonha das lágrimas que estão descendo aqui no meu rosto. Devo muito a você. Sou muito agradecido a todos vocês aqui, mas meu irmão, muito obrigado. De verdade" (Veja abaixo o vídeo postado pela repórter da Rádio Gaúcha no Twitter). Ao fim da reunião, afinado com Doria, Maia afirmou: "O PSDB e o DEM estarão juntos em 2020 e em 2022".

PESQUISAS

De acordo com o capítulo da pesquisa VEJA/FSB dedicado aos cenários para a eleição presidencial de 2022, o presidente Jair Bolsonaro vence em todas as simulações que testam seu nome. Ele tem 35% das preferências no primeiro turno em relação a Fernando Haddad (PT, 17%), Ciro Gomes (PDT, 11%), Luciano Huck (sem partido, 11%), João Amoêdo (Novo, 5%) e João Doria (PSDB, 3%). O resultado reflete o chamado “recall” da recente disputa eleitoral — os três mais bem colocados no primeiro turno de 2018 ocupam, na mesma ordem, as primeiras posições no levantamento. “O presidente está ganhando o terceiro turno. Bolsonaro alimenta relações políticas turbulentas enquanto mantém um casamento estável com seu eleitorado”, diz o cientista político Antonio Lavareda. Um nome que poderia ofuscá-lo como candidato da situação a 2022, o ministro Sergio Moro, aparece bem no cenário em que substitui o presidente, liderando com 27%. Apesar disso, não repete o desempenho do chefe, ficando 8 pontos abaixo — e perdendo para o somatório de votos de candidatos mais à esquerda, como Fernando Haddad (18%) e Ciro Gomes (13%).

Os resultados apresentados até o momento pelo governo Jair Bolsonaro estão aquém do esperado para 42% da população brasileira, segundo levantamento encomendado por VEJA ao Instituto FSB Pesquisa – deste contingente, 27% consideraram o desempenho muito pior do que o esperado e 15% disseram que é um pouco pior do que o esperado. A taxa de pessoas que veem a performance do governo igual à que já esperavam é de 28%. Entre os que estão satisfeitos com a gestão, 16% disseram que os resultados são um pouco melhores do que o esperado, enquanto 11% afirmaram que eles são muito melhores do que o esperado.

Nenhum eleitor de Jair Bolsonaro pode dizer que se surpreendeu com a saraivada de declarações desastradas que ele vem distribuindo nas últimas semanas sobre temas variados. Afinal, o ex-deputado do baixo clero ficou famoso justamente por, entre outras frases polêmicas, chamar o torturador da ditadura Brilhante Ustra de “herói nacional”. Mas, para 68% dos brasileiros, as falas do presidente prejudicam em algum grau o andamento do governo — para 49%, elas atrapalham muito.

DENTAN NA MIRA

Aliados de Deltan Dallagnol encarregados de mapear os movimentos no CNMP acreditam que o colegiado deverá aplicar a primeira punição ao chefe da Lava-Jato na semana que vem. É que o conselho pode analisar uma reclamação apresentada contra Deltan pelo presidente do Supremo, Dias Toffoli. A ação de Toffoli foi apresentada em abril no CNMP, após Dallagnol afirmar, numa entrevista, que alguns ministros do STF “mandam uma mensagem muito forte de leniência a favor da corrupção”.

ELOGIOS

Drauzio Varella escreveu mais um artigo em defesa do SUS, retomando um pouco a história do Sistema. Diz que, há 30 anos, a ideia de saúde gratuita universal “parecia divagação de sonhadores”, e ele achou “que levaríamos décadas até dispor de recursos financeiros para a implantação de políticas públicas com tal alcance”. “Menosprezei a determinação, o compromisso com a justiça social e a capacidade de convencimento desses precursores”, reconhece, lembrando que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que ousou construir um sistema assim.

AUTORITÁRIO

Após o presidente Jair Bolsonaro romper o armistício com Rodrigo Maia nesta sexta, 23, o presidente da Câmara afirmou que o Brasil vive hoje “quase um estado autoritário”, durante o evento da Associação dos Advogados de São Paulo, que entregou ao parlamentar um relatório crítico ao projeto anticrime do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro. “Vivemos quase num Estado autoritário, pelo poder que muitos setores, eu não digo só não área da segurança pública, no Judiciário, mas os setores como um todo, inclusive no meio ambiente, em relação à vida da sociedade brasileira”, declarou Maia.

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Com informações de Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães e Marcelo de MoraeS


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Colunista

Victor Barone

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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