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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna Conexões

A recessão que se avizinha...

...e os coveiros de sempre

Postado em 03 de Março de 2016 - Bruno Lima Rocha

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Venho afirmando o óbvio em distintas dimensões. Creio que é consenso até entre a esquerda restante da base do governo que o país se inclinou em demasiado para uma expansão do consumo, a acomodação de forças, as garantias das margens de lucros de empresas permissionárias e concessionárias e, para o jogo duro no Sistema Internacional, primarizou a economia brasileira. O bom desempenho do agro na balança comercial se dá apesar dos preços rebaixados das commodities. Ou seja, com a nossa perda nos termos de troca, estamos plantando mais grãos para vender por valor menor, o que já assanha o partido do boi e do latifúndio a grilar os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e expandir a fronteira agrícola neste "novo cerrado", levando ao esgotamento dos recursos hídricos e o aumento do êxodo rural.

A cova brasileira se dá por uma série de fatores, mas esta é muito mais rasa do que os coveiros midiáticos e "especialistas do mercado financeiro" gostariam que fosse. A eterna maldição da relação dívida-PIB aumenta na medida em que a taxa da Selic não baixa - ficou em 14,25% de novo, através do quase autogoverno do Copom. Enquanto isso, os coveiros exigem o aumento permanente da Selic e a liquidação de tudo. Tentam fazer recordar a recessão de 1990 e 1992, mas se equivocam, pois este período havia hiperinflação, e em 2009 o Brasil foi defendido por medidas anticíclicas. O problema não é a recessão hiperinflacionária, que não vai voltar, mas a recessão com inflação com algum grau de controle, como foi o período FHC, em especial a partir da fraude da reeleição de 1998, com o estatuto da reeleição durante o mandato de Fernando Henrique, através de compra de voto no Congresso. Em 1999, quando chamaram a raposa para tomar conta do galinheiro, com Armínio Fraga à frente do Banco Central, o R$ Real foi desvalorizado em três pontos perante o dólar, e em 2002 atingiu a relação 4 por 1, a mesma que temos agora.

Estamos diante de um momento crítico, onde as forças populares estão realmente sem uma base sólida por onde arrancar e ainda pendentes do canto da sereia do eleitoralismo - por dentro e por esquerda do governo.

A pregação do austericídio dentro e fora do segundo governo Dilma Rousseff, a fala permanente dos coveiros do caos e o ambiente político forçosamente complicado está levando ao governo atual a fazer as piores escolhas, todo o tempo. A inflação que tivemos em 2015 através de preços administrados é algo próximo da traição a confiança do povo, confiança esta cada vez menor e seguidamente anunciada como a última bandeira a ser atirada ao piso. O caminho da próxima trairagem está na "reforma" da Previdência, a mesma medida parcial que Lula tomou em agosto de 2003 e culmina com o racha da então esquerda de seu partido, dando a partida definitiva na criação do PSOL.

Estamos diante de um momento crítico, onde as forças populares estão realmente sem uma base sólida por onde arrancar e ainda pendentes do canto da sereia do eleitoralismo - por dentro e por esquerda do governo -; enquanto o governo Dilma em sua segunda edição é uma soma estranha de um grupo de confiança com aspirações próprias dentro do partido - como Miguel Rossetto e Jaques Wagner - além de uma subordinação a base oligárquica do governo, comandada por Renan Calheiros e Sérgio Cabral Filho, ambos à frente do PMDB que se impõe em escala nacional.

Uma possibilidade de reação da base lulista com o próprio à frente é explicitar a punição seletiva da Polícia Federal e do Ministério Público, investigando tudo do em torno de Lula e Dilma (no meu entender investigações corretas) e nada do em torno de FHC e cia, onde abundam evidências e no mínimo situações concretas para notícias-crime. Mesmo apanhando todos os dias, o ex-sindicalista que segundo o próprio nunca fora de esquerda, Lula ainda é a opção de projeto de poder do partido onde ele é o único ator individual com poder de veto e imposição de vontades, ao arrepio da organicidade e à revelia da democracia interna.

Os coveiros estão babando e vendo a possibilidade de atingirem seu alvo estratégico: as garantias e direitos coletivos existentes na Constituição de 1988 mas que de fato o Estado brasileiro não atende e, no que depender da direita política que não ganhou na urna, vai atender cada vez menos. No caso da direita que saiu vitoriosa, é possível que Dilma rasgue todo, todo o seu programa e promessas de campanha com o intuito de sobreviver politicamente e terminar o mandato.


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Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha

Bruno Rocha é jornalista, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. Está vinculado aos setores mais combativos do movimento popular gaúcho e do cone sul.


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