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Quarta-Feira 11.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna Conexões

Levy e a vitória de Pirro da esquerda

Até quando os setores petistas que ainda creem no protagonismo popular vão aceitar a louca teoria do "governo em disputa"?

Postado em 05 de Dezembro de 2014 - Redação Semana On

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Em texto publicado no portal Carta Maior e com coleta permanente de assinaturas eletrônicas, quem contesta as decisões de cúpula conclama as bases de apoio a reeleição de Dilma a simplesmente forçá-la a cumprir suas promessas e compromissos de campanha! Ao escrevermos a este respeito pode parecer provocação ou sectarismo, mas quando a própria esquerda que ainda apoia o governo de coalizão analisa que as indicações abaixo citadas são uma nítida guinada para a direita é porque estamos em um campo de luta aberto e deflagrado.

Para quem não acredita em governo em disputa (como é o caso deste analista), entendo que é o momento oportuno de reivindicar uma nova forma de acumulação de forças, indo além do constrangimento de quem é petista ainda e tem conduta e trajetória reivindicável. Selecionei este trecho do texto abaixo do manifesto, pois entendo ser ilustrativo. O embate está só começando e o 3o turno pelo visto vai ser uma peleia de longo prazo, até mais dura do que o 2o turno.

"No terceiro turno que está em jogo, a presidenta eleita parece levar mais em conta as forças cujo representante derrotou do que dialogar com as forças que a elegeram.

Os rumores de indicação de Joaquim Levy e Kátia Abreu para o Ministério sinalizam uma regressão da agenda vitoriosa nas urnas. Ambos são conhecidos pela solução conservadora e excludente do problema fiscal e pela defesa sistemática dos latifundiários contra o meio ambiente e os direitos de trabalhadores e comunidades indígenas.

As propostas de governo foram anunciadas claramente na campanha presidencial e apontaram para a ampliação dos direitos dos trabalhadores e não para a regressão social. A sociedade civil não pode ser surpreendida depois das eleições e tem o direito de participar ativamente na definição dos rumos do governo que elegeu."

Há que ser justo com Dilma. Jamais em momento ela ou Lula ou a coordenação de campanha comprometeram-se com mecanismos de consulta, mesmo que indireta, para com a sociedade civil mobilizada para sua reeleição. Na ausência de mecanismos institucionais para reforçar a soberania popular, a única forma de ser escutado é pela pressão de ruas, fazendo oposição de esquerda a este mesmo governo que aqueles a assinar o manifesto ajudaram a eleger.

Na ausência de mecanismos institucionais para reforçar a soberania popular, a única forma de ser escutado é pela pressão de ruas, fazendo oposição de esquerda a este mesmo governo que aqueles a assinar o manifesto ajudaram a eleger.

 Mais da chantagem institucionalizada do PMDB, PP e demais “aliados”

Ao longo das duas últimas semanas, antes de Dilma colocar Levy e Nelson Barbos, além da continuidade de Alexandre Tombini como uma situação de fato, houve um princípio de rebelião dos “aliados”. A base do governo trabalha a passos lentos enquanto prepara o cerco por dentro. Os caciques não votaram a alteração da meta de superávit primário (por duas ocasiões), votação esta que era justamente a manobra do Planalto para evitar constrangimentos para os novos titulares das pastas econômicas a assumir. Nas pautas dos jornalões, muito se falou a respeito disso e, como sempre, faltou alguém problematizar o fantasioso superávit primário, que opera como certificação de Estado obediente para os especuladores internacionais.

Estamos batendo metas fixadas na quebradeira de 1999 ainda! E nas semanas que seguem, dá tempo de sobra para a base "governista" diminuir o espaço de manobra da presidente reeleita. Os titulares da articulação do 2o governo Dilma, Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto e Jaques Wagner, vão aplicar a expertise na interna da esquerda para tentar domar o apetite voraz da coalizão. Que fim de carreira companheiro.

Dilma, Levy e louca teoria do governo em "disputa"

O discurso de Joaquim Levy, ministro da Fazenda do 2º governo de Dilma e indicado pelo Bradesco quando da recusa de Luiz Carlos Trabuco, outro executivo do conglomerado de serviços financeiros comandado por Lázaro Brandão, traz elementos de tipo monetarista e apontariam um retrocesso. Tal afirmação é de Breno Altman, editor do portal Opera Mundi (boa fonte de política internacional) e para corroborar o texto que saíra na Carta Maior (em 28/11/14), o especialista em editoria de Mundo nos aponta alguns dados irrefutáveis.

- de março de 2013 a outubro de 2014, a Selic pulou de 7,25% para 11,25% ao ano.

- cresceu a renda financeira das vinte mil famílias que controlam 70% dos títulos da dívida interna. Mas deterioraram-se as contas públicas: quatro pontos a mais de juros significam despesa anual extra ao redor de R$ 120 bilhões.

O que fica de dúvida é até quando os setores petistas que ainda têm algum sistema de crença no protagonismo popular ou ao menos algum tipo de opção preferencial pela soberania e o emprego direto, vão seguir com a louca teoria (ou justificativa) do "governo em disputa"?!

Agora, para regozijo da mídia conservadora e seus analistas políticos e econômicos, o governo de continuidade do lulismo dá as bases para a afirmação de estelionato eleitoral.

Levy e a vitória de Pirro da "esquerda" 

Agora, para regozijo da mídia conservadora e seus analistas políticos e econômicos, o governo de continuidade do lulismo dá as bases para a afirmação de estelionato eleitoral.

O argumento de Merval Pereira reproduz a mesma afirmativa de Bolívar Lamounier, a da vitória nas urnas descompassada com a vitória política - ou a falta de legitimidade como mais importante do que a legalidade do pleito. Vejamos abaixo:

"O que esse pessoal não quer enxergar, e que Dilma foi obrigada a entender, é que a vitória eleitoral do PT em outubro não correspondeu a uma vitória política, pois forjada à base do abuso da máquina pública e mentiras, sejam as divulgadas pela propaganda eleitoral, ou as espalhadas em diversas formas pelo país para amedrontar os menos informados." (Blog do Merval, no portal de O Globo, em 28/11/14).

Ou seja, se por um lado temos traição simbólica de Dilma - porque traição programática temos de admitir que não foi - de outro, o 3o turno caracteriza um intento de retirada de legitimidade, a partir da opinião publicada (difundida no caso, distribuída) e da contestação das direitas (tanto a golpista Udenista como a que aponta Aécio como o Capriles nacional).

Se por um lado incomodou aos operadores recrutados para gerir a economia no 2o mandato de Dilma o modesto manifesto assinado por cerca 4930 pessoas até o final desta análise, por outro, houve uma sensação de Vitória de Pirro para quem assinou o texto de reivindicações e viu toda a amarra construída por Lula e Palocci no primeiro mandato - quando o próprio Levy servira como secretário do Tesouro Nacional - retornar menos de um mês após a vitória nas urnas.

O que a direita econômica quer - adoraria - seria um insulamento das pastas econômicas, criando uma verdadeira autarquia vinculada teórica e estrategicamente aos grandes agentes econômicos, com predileção especial para o capital financeiro.

Conclusão

Até a parte lúcida do Financial Times reconhece: a extrema-esquerda europeia está certa quanto a impossibilidade do pagamento da dívida pública odiosa

Eis o paradoxo. Até o Financial Times (em artigo de Wolfgang Münchau, em 23/11/14) admitiu que estamos certos quanto a insensatez da dívida pública. A Globonews, surpreendentemente (em 25/11/14) deu o perfil da dívida pública brasileira sendo que esta tem mais de 60% de sua composição de detentores de títulos brasileiros composta por bancos, fundos de investimento (pânico, os tais hedge funds!) e, adivinhem, compradores do estrangeiro. Só o Brasil paga 11,25% ao ano, a média mundial não bate 1 ponto, quando chega a 2 o cassino financeiro faz festa. Aqui a dívida é o que afunda o investimento público. Ironia do destino, fica evidente que os ex-militantes reeleitos estão à direita da consciência dolorida do citado colunista do FT.


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Colunista

Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha

Bruno Rocha é jornalista, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. Está vinculado aos setores mais combativos do movimento popular gaúcho e do cone sul.


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