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Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna Conexões

A política está muito além da urna e do voto

Bruno Lima Rocha analisa as eleições municipais e projeta a conjuntura nacional de um Brasil em pandemia, com aumento das desigualdades e ainda sem projeto de nação

Postado em 18 de Novembro de 2020 - João Vitor Santos e Patricia Fachin - IHU

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As eleições para as prefeituras municipais e Câmara de Vereadores deste ano revelaram as contradições dos tempos que temos vivido. Para uns, sinais de esperança e de que novos caminhos precisam ser pavimentados. Para outros, sinais de alerta porque as forças conservadoras e que ameaçam retrocessos ainda se mostram ativas.

Na prática, esses sinais podem ser lidos pelo avanço com a eleição de negros e negras, mulheres e representantes da comunidade LGBTQI+. Ou, ainda, pelo crescimento do PSOL, um partido que sai vitaminado na esquerda, muito embora o PT e as tais coalizões de esquerda não tenham dado a resposta esperada. A exceção fica por conta de Eduardo Suplicy, o petista mais votado para as Câmaras, e do espaço que o partido conquista em São Paulo. Por fim, a derrota – ou ao menos o banho de água fria – daqueles candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro. De outro lado, é preciso reconhecer que o Centrão de MDB, PP, PTB e DEM segue forte nas prefeituras dos rincões do Brasil, e os vereadores delegados, capitães e representantes de forças repressivas mais conservadoras se fizeram presentes e não tiveram desempenho tão ruim.

A análise de Bruno Lima Rocha, em entrevista concedida à IHU On-Line, vai nesse sentido. “Os candidatos do presidente Jair Bolsonaro não foram nada bem, o PT não ganhou na largada em municípios importantes, houve um reforço da direita oligárquica no campo mais conservador e um considerável avanço do PSOL”, observa. Sobre as eleições presidenciais, aponta que “no Brasil vamos ter algum consenso do discurso e propaganda que marcaram a campanha do Partido Democrata dos EUA em 2020 e vão ao encontro de uma prática política inclusiva”. Mas também sopesa: “Ao mesmo tempo, no Brasil, para além do bolsonarismo, nunca tivemos uma hegemonia econômica tão forte do capital financeiro”.

Bruno Lima Rocha é cientista político, professor nos cursos de Relações Internacionais e Jornalismo na Unisinos. Possui doutorado e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e graduação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Atualmente é pós-doutorando em Economia Política pela UFRGS.

 

O que o resultado das eleições municipais deste ano revela sobre a política e a democracia de nossos tempos? No último pleito, reinou o discurso do novo. Neste, o velho jogo dos interesses particulares e partidários voltou à cena?

Era presumível que o discurso da “nova política” através dos “ventos da Lava Jato” teria um fim curto. Creio que o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter abandonado sua própria sigla, afinal o PSL termina 2018 com a segunda maior bancada do Congresso, revela muito dessa falácia.

Outro fator é o peso negativo do governo federal; inapto, não realiza nada e joga na confusão a sociedade brasileira. O PSL poderia optar por liderar esta direita, mas não resistiu ao próprio mandatário e à disputa por recursos partidários. As legendas mais tradicionais e com estruturas municipais arraigadas e compostas de oligarquias estaduais fortes (MDB, DEM, PSD, PP e PSDB) terminam por sair vitoriosas no pleito municipal. Isso fortalece o chamado “Centrão” (a direita oligárquica herdeira da ARENA, basicamente falando, considerando que o MDB recebeu uma leva de arenistas na década de ’80) e aumenta o custo de apoio ao governo de Bolsonaro.

Qual a sua análise quanto ao resultado das eleições nas principais capitais do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul?

No geral, os candidatos do presidente Jair Bolsonaro não foram nada bem. O PT não ganhou na largada em municípios importantes, houve um reforço da direita oligárquica no campo mais conservador e um considerável avanço do PSOL como estrutura de representação parlamentar, tendo chances de conquistar a prefeitura de Belém como capital.

Chama a atenção a presença de várias candidaturas com título profissional, como agentes da lei ou militares (delegado isso, major aquilo...), e a eleição destes não foi tão impactante como em 2018. O mesmo se dá com o fraco desempenho do partido Republicanos, o único diretamente vinculado a um setor do neopentecostalismo, a Igreja Universal do Reino de Deus - IURD. O discurso da “nova direita” perde fôlego, embora o NOVO tenha garantido algumas posições parlamentares.

Do MBL [Movimento Brasil Livre], confesso, não sei se existe ainda e em qual posição está. Até o momento de fechar esta entrevista [na madrugada de 16-11], o PDT por “centro-esquerda” é o maior partido municipalista do Brasil deste campo. Isso cacifa ainda mais uma aliança com Ciro Gomes, se e caso a centro-esquerda e o trabalhismo consigam traçar essa coligação.

A pandemia de 2020 trouxe uma série de temas ao debate, como a emergência climática, de concepção de uma outra lógica econômica, da necessidade de uma renda básica e mesmo de um redimensionamento do poder e das ações estatais. Com base no resultado das eleições, como devem evoluir esses debates? E quais devem ser os reflexos nas eleições presidenciais?

Vejo que no Brasil vamos ter algum consenso do discurso e propaganda que marcaram a campanha do Partido Democrata dos EUA em 2020 e vão ao encontro de uma prática política inclusiva, de formas de economia verde e desenvolvimento sustentável e responsabilização com o outro, no sentido de alteridade. Ao mesmo tempo, no Brasil, para além do bolsonarismo, nunca tivemos uma hegemonia econômica tão forte do capital financeiro, especulativo, parasitário e sem compromisso algum em escala societária.

Esse paradoxo é grande e a conta não fecha, eis o papel ainda fundamental de Paulo Guedes no governo Bolsonaro e a censura nos meios e conglomerados de comunicação nas pautas de economia e no que diz respeito à blindagem da farsa fiscalista e absurda da PEC do “teto dos gastos”. Neste sentido, a cancha ainda está aberta. Até pensei no início da pandemia que teríamos uma inflexão da direita midiática rumo a um pacto de tipo neokeynesiano, mas isso não se realizou.

Infelizmente, no Brasil, essa agenda mais propositiva e distante da necropolítica vai ter dificuldade de chegar ao nível de maioria que tínhamos quando da Constituinte (um texto avançado promulgando uma Constituição apesar da composição da Assembleia Nacional Constituinte).

Quais são as saídas para as mazelas sociais que temos no Brasil, para além da política como a conhecemos? Como vê a proposta de teóricos, como o francês Gaël Giraud, que sugerem uma conversão espiritual e política para realmente transformar as instituições sociais que precisam ser modificadas?

Não posso ser leviano pois não conheço a obra desse filósofo e menos ainda uma proposição abstrata. O que sei e tenho grau de certeza é que as instituições formais se transformam a partir de força social consolidada e os valores e pautas desta força social são as bandeiras que podem modificar situações e diminuir mazelas sociais. Grupos de pressão, redes sociais, meios alternativos, organização territorial e luta direta. Para começar a equilibrar a gangorra.

O problema no Brasil foi uma brutal geração de renda na Era Lula, mas que era frágil (politicamente desorganizada, socialmente dispersa e ideologicamente adesista aos valores do sistema) e pouco resistiu ao golpe de Estado e antes da traição da ex-presidente Dilma quando reeleita, emplacando um Chicago Boy na Fazenda. Não acredito que a América Latina “ature” muito tempo essa breve inflexão neoliberal, mas no caso brasileiro, é preciso – urgentemente – quebrar a farsa fiscalista e a concentração de renda através do controle da pasta da Economia pelo parasita financeiro. Do contrário não há viabilidade de nada em termos de política pública e demandas para os governos municipais recém-eleitos.

Sobre a conversão da política, uma pauta emergente de como estar e sobrevivermos nesse mundo do teletrabalho, do aquecimento climático, dos crimes ambientais, destruição do território e desumanização em escala societária, creio que sim, estamos indo bem rumo a um novo “consenso” por esquerda de modo a garantir essa pauta como um valor social consolidado.

Deseja acrescentar algo?

A política está muito além da urna e do voto. Sem organização social, sem estruturas políticas permanentes, sem militância devotada não buscando compromissos de cargos e posições, simplesmente nada se realiza, apenas teremos reação aos absurdos da direita. Outro tema é construirmos consensos de política econômica, ampliando o espaço para políticas públicas, democracia no serviço público, moedas sociais e experiências de arranjos produtivos locais para políticas públicas e sob o controle do movimento popular.

Infelizmente o maior fator de desorganização social no Brasil atual é o próprio governo federal com o patético e colonizado Jair Bolsonaro “governando pelo Twitter”. O volume desse problema é gigantesco e deve ser enfrentado, incluindo a presença de meios alternativos de comunicação, consorciando a mídia universitária, alternativa, pública não estatal e local-municipal. O esforço pela busca de saídas que descolonizem a dominação sobre o país e nossa população deve ser permanente e ultrapassa os limites do jogo democrático burguês de representação.


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Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha

Bruno Rocha é jornalista, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. Está vinculado aos setores mais combativos do movimento popular gaúcho e do cone sul.


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